Singeleza

outubro 19th, 2010 § 0 comments § permalink

Não sei como dizer. Não haveria como dizer com palavras. Mas, se elas dissessem o que queria dizer, diriam algo de brisa a beira mar, de pés descalços na areia, de liberdade. Diriam girassóis. Diriam rosas e beija-flores. Diriam de um olhar limpo e amoroso. De sorrisos simples. De orvalho e cheiro de manhãs. De carinhos na alma. De alegrias-crianças brincando leves pelos jardins. De vôos coloridos de borboletas. De noites iluminadas. Pela lua, por estrelas, por vaga-lumes. Pela abundância de boa vontade e admiração. De gratidão. De espontânea ousadia. De confiança em sentir, sem medo. Da generosidade de doar-se a quem vibra e sabe naturalmente o valor do presente que recebe. De milagre. De magia. De vida. Da saudade que sinto de você agora. De como você é bonita e bonita é essa saudade.

Ronronando…

outubro 4th, 2010 § 0 comments § permalink

Eu digo que te amo. Você me pergunta, deitada em mim, sorrindo aquele sorriso que é só seu – e, em meus devaneios egocêntricos, também meu – por quê. E são tantos os motivos que eu não sou capaz organizá-los em uma lista, como pede sua apaixonante sensatez. Ainda mais quando sou desafiada por esse tal sorriso que desarma – e, na seqüência – arma. Ainda mais quando tenho você em mim, só para mim, mais minha do que jamais alguém foi – cabelos descansando sobre o meu peito, mãos passeando pelo meu corpo, olhos vasculhando minha alma. Como raciocinar com um barulho desses? Então, para seu entretenimento, e para manter esse sorriso me olhando, vou jogando motivos no universo, sem método ou lógica. Mas, sozinha no silêncio do meu quarto, pensando em você, e nos motivos que me levam a te amar desse jeito tão puro, tão forte, tão sincero, fica muito fácil responder.

Eu te amo porque você chegou sorrateira, como quem não quer nada, mas vestida desse sorriso que é capaz de parar indústria e comércio. Te amo porque você me lê, me dá bola, me embala. Te amo porque você tem mãos lindas, cabelo brilhante, pele cheirosa. Porque você é alta, inteligente e sarcástica. Te amo porque você sabe meus truques, porque você tem olhos de jabuticaba, porque você gosta dos meus piores defeitos. Porque você é adoravelmente arrogante, porque você mexe a cabeça quando dança, porque você dorme com os pés para fora do cobertor. Porque você gosta de Pearl Jam, Ben Harper e Paul Van Dyke, mas também de Chico, Ivone Lara e Roberto Carlos. Porque você torce para um time que eu odeio, porque você acha que meus olhos são os mais bonitos do mundo e porque você entorta a boca de um jeito sapeca quando fala alguma coisa para me provocar. Porque você não precisa de ninguém e, ainda assim, vive rodeada por várias tribos. Porque você mudou de casa para deixar que nossa história pudesse acontecer, porque você nunca teve medo de me deixar entrar, porque você considera me deixar ficar. Porque você ouve a música da vida, e é a mesma que eu ouço, e não vê outra forma de passar por aqui que não seja com ritmo. Porque você inventou a chubby dance, tem um creme para cada ocasião e lê os livros que eu recomendo. Porque você beija como ninguém, mexe no meu cabelo e faz amor olhando nos meus olhos. Porque você me coça, coloca o despertador para tocar uma hora antes do necessário só para poder me namorar enquanto eu ainda durmo, porque você toma banho de manhã e, logo depois, volta para a cama para me beijar mais. Porque você liga várias vezes ao dia para dizer que me ama, para saber se eu estou bem, para me contar sobre sua rotina. Te amo porque você usa salto, tênis e chinelos; vestidos, bermudas e calças jeans. E porque você combina com todos esses estilos. Porque você chora quando fazemos amor, porque você pergunta sobre o meu pai, ri das besteiras que eu falo e gosta de ficar vendo fotos da minha infância deitada ao meu lado. Porque você quer ter uma casa de campo comigo, um lugar onde a gente possa passar a noite olhando o céu e bebendo vinho, porque você respeita minhas neuroses. Porque você gosta de alterar quimicamente a realidade das coisas, porque você adora experimentar, porque você não sabe viver sem flores. Porque você gosta de deitar e colocar minha cabeça no seu ombro, porque você acha que assim me protege, porque você sabe que eu preciso de proteção. Porque de manhã você adora yakult e danoninho, pão na chapa e queijo branco, Calvin e mamão. Porque você ri quando eu vou fazer café e me sujo inteira, porque você vai trabalhar muito cedo e deixa ao lado da cama meus cadernos preferidos do jornal, porque você me deu a chave da sua casa. Porque você cuida da Joaquina, é charmosamente desajeitada e volta e meia escorrega no tapete da sala. Porque quando eu chego na sua casa e você está no banho você passa a mão no vidro do box para tirar a água e me ver melhor, me chama mais perto, abre a porta e me beija molhada. Porque você acha que um dia a gente pode, quem sabe, desafiar o sistema e casar. Porque pensar nisso faz seus olhos se encherem de água, porque você também sabe que normas e padrões podem nos afastar. Porque você comprou um caderninho no qual a gente escreve as besteiras que fala e porque você se diverte muito com isso. Porque você acha que a felicidade está nos detalhes, em passar uma noite comendo peixe, bebendo vinho, colando figurinhas no álbum da Copa, que você me deu de presente, e ouvindo Tom e Elis. Porque, nessa noite, colando figurinhas, ouvindo Elis e bebendo vinho, seus olhos brilharam como nunca. E então você parou tudo, colocou a mão no meu rosto, me olhou bem fundo e me beijou do jeito mais carinhoso do mundo. Porque você entende que o sentido da vida é esse: é amar, ser amada, e criar uma doce rotina. Nossa doce rotina. E que nada mais importa. Porque você sabe que nossa história pode ser precocemente interrompida, e que, mesmo assim, ela já terá valido a pena. Porque ela talvez seja, agora e para sempre, a história mais bonita das nossas vidas.

Mas, se eu tivesse que pegar um motivo apenas, eu diria que te amo porque você é a mulher com quem eu sempre sonhei, mas nunca achei, de verdade, que pudesse existir. Por isso. E também, meu amor, porque você mexe a cabeça quando dança.

(“Nossa doce rotina”, Milly Lacombe)

Marques

setembro 14th, 2010 § 0 comments § permalink

Mas, e se as manhãs falassem?
As noites inquietassem?
Raros são quem as ouvem.
Caros quem as entendem.
Ir e vir de corações. Entre eles, o teu.
A quem o dará? Quem o reviverá?

Lábios

setembro 3rd, 2010 § 1 comment § permalink

Uma vontade louca de lhe ter. Livre entre meus braços. À vontade. Leve e urgente. A dançar, nua, por entre todos os meus abraços. E beijos. Eu, intenso e demente, em todos os seus lábios.

Adeus

agosto 21st, 2010 § 1 comment § permalink

"Slow dancing" por apoetsdream

Fotografia: “Slow dancing” por apoetsdream

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

Desde o teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

(Pablo Neruda)

Atrasado

agosto 17th, 2010 § 1 comment § permalink

Adianta dizer que morro de raiva de você? De você não querer saber se estou vivo ou morto? De você não querer saber que eu finalmente comecei a fazer aulas de dança de salão? Que continuo saltando de pára-quedas? Que lá de cima, na cidade, eu ainda te procuro?

Adianta contar que arrebentaram meu carro na sexta pra levar o som? E levaram tudo, menos o pendrive que você me gravou? Aquele que ainda tento decifrar o porquê de cada música e tem a tua declaração de adeus, muito mais que de amor? Que só consigo dormir reinventando o som da tua voz nos meus ouvidos? E acordar recriando o brilho dos teus olhos no meu dia?

Adianta dizer que só consigo beijar de novo quando esqueço a tua boca inesquecível? Que revejo teus sorrisos nas flores e tuas lágrimas na chuva? Os teus carinhos no vento? Que depois da minha pele e meu corpo terem sem você morrido, castos por tanto tempo, voltei a te procurar em cada mulher que conheço, jurando para mim mesmo que um dia ainda te encontro?

Adianta dizer que, por “descuido”, mostro fotos nossas, juntos, para as novas pretendentes, muito mais que para provocar ciúme, mas para dizer: “você consegue ser melhor que ela? mais linda e mais despudoradamente sagrada?” Adianta dizer que nos domingos, à noite, eu ainda choro sobre essas fotos? Que quero, de alguma maneira ainda não inventada, te trazer de lá para o agora e reviver tudo que ainda não vivemos?

Adianta dizer que estou prestes a me casar? Que vou me mudar de cidade de novo? Que vou amar tudo de novo? Que vou ter os teus filhos com outra pessoa? Que vou viver plenamente tudo que você também queria e, covarde, estúpida e idiota, desistiu? Adianta dizer que vou ser sim muito feliz com ela? Que sem você como fantasma ela é ainda mais linda, mais despudorada e mais sagrada? Muito melhor que você?

Adianta dizer que eu consegui te matar? E que nem assim adianta? Que você está morta e enterrada, mas meu amor não? Adianta?

Louco

julho 31st, 2010 § 1 comment § permalink

“Vai passar, tu sabes que vai passar.” Caio falava sobre a angústia, sobre a dor, sobre o desespero. Muito provavelmente após o amor. A perda de um amor. A perda da possibilidade de um grande amor. Ou a perda de um amor que realmente foi grande. E foi mesmo amor. Mas não foi eterno. Quero dizer… Um grande amor sempre é eterno. Mas a sua vivência pode não sê-lo. Raramente é. Continuaria grande se fosse?

A quem está se apaixonando agora, talvez caberiam as mesmas palavras de Caio: vai passar, tu sabes que vai passar. Mesmo assim, iluda-se imaginando que será para sempre. Que será o grande amor da sua vida. Que envelhecerão juntos. Que a chama jamais se extinguirá. Iluda-se, sim. Pois que não há ilusão mais bela que esta em toda a vida. Um amor imenso, verdadeiro e eterno.

A vida… A vida é uma ilusão!

Sei que na vida nem tudo vale à pena ser feito. Mas que não fazer pode ser muito pior. Acreditar não é nada. Mas, não acreditar é a morte. E nada pode ser tão nada, triste e vazio quanto morrer em vida.

Então eu vivo. Faço. Acredito. Apaixono-me. Crio nas ilusões as minhas verdades. Das minhas verdades, as ilusões.

Meus sonhos são amantes das minhas realizações.

Jamais me apaixonei prevendo um fim. Eu vivo na eternidade. Porque, mesmo sabendo que, sim, vai passar, talvez um dia me engane. (E eu posso estar sempre enganado.)

E se a eternidade for tecida desses breves, loucos, passageiros e intensos momentos que em si mesmos eram pequenos pedaços de eternidades?

Há quem diga que amei muitas mulheres. Nada mais longe da verdade. A vida inteira amei apenas uma mulher. A amei em cada mulher pela qual me apaixonei. E continuarei amando. Até que ela chegue.

(Chegará? Não importa! A amo e a amarei da mesma forma.)

Em cada mulher a derradeira, a única, a eterna. Na minha loucura de que fosse. De que era. De que seja.

(Que ela mesma venha. E sem me convencer de eternidade, deixando-me eternamente na dúvida, seja ela a eterna, única e derradeira.)

Todos invejam os que enlouquecem por amor.

Eu não enlouqueço. Nasci louco.

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Com citações a Antonio Abujamra. E outras citações conscientes e inconscientes.

Sobre encontros e despedidas

julho 21st, 2010 § 0 comments § permalink

Ela tinha os olhos profundos. Sei, falar isso é totalmente cliché. Mas tinha. Profundamente belos e profundamente tristes. Tão belos que parecia que aquela tristeza era a minha. Tão tristes que parecia que aquela beleza era a minha. É… Sim, foram os olhos. E, por algum tempo, alguns meses, um ano, sei lá… Ela foi o que tinha de belo, a minha alegria e a minha tristeza. (Tomo coragem, atrevido, levanto da minha mesa e já na cadeira ao lado dela passo a conversar como se a conhecesse desde sempre. Uma ousadia tão simples para mim de ser cumprida. Mais tarde ajeitaria seus anéis. Nunca seu coração — jamais o conheci.) Orquestrado por deus, pelo universo, pelo destino, ou como queira chamar, pressenti ali, naquela noite, naquele momento, mais que o encontro de dois olhares, o encontro de duas almas, profundamente vivas e profundamente belas. Ela tinha os olhos profundos. Eu, os olhos, tão vivos. Tão desavisados e ingênuos. Ali, naquela noite, não nos achamos nem nos encontramos. Já e desde sempre nos sonhamos e nos conhecemos. E, por isso mesmo, ali, naquela mesma noite, naquele primeiro olhar, tão vivos e tão profundos, nos despedimos. E nos perdemos.

A voz dos teus olhos

julho 18th, 2010 § 0 comments § permalink

nalgum lugar onde nunca estive, alegremente além de
qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio
em teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,
tu me abres sempre, pétala por pétala, como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se quiseres ver-me fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo por toda parte;

nada que possamos perceber neste mundo iguala
o poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com as cores de seus continentes,
restituindo a morte e o eterno em cada respiração

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; apenas uma parte em mim compreende
que na voz dos teus olhos cabem todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, possui mãos tão delicadas

(“Somewhere I Have Never Travelled”, e.e.cummings)

A devolução das flores

julho 13th, 2010 § 0 comments § permalink

"Suspicion" por hellolikegoodbye

Fotografias: “Suspicion” por hellolikegoodbye

Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida te enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.

(Caio Fernando Abreu)