março 8th, 2010 § § permalink

Fotografia: “Beach Bum” por Haushinkah
Perdi o medo de lhe perder quando finalmente perdi. A noção, perdida, de que na vida perder seja possível. A ninguém se prende. A ninguém se perde. Nós é que nos perdemos. Rios. Correntes. Antes. Para nos reencontrar. No mar. Depois. Amar.
fevereiro 5th, 2010 § § permalink
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo,
o amor transforma-se em tempo,
a dor transforma-se em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
(“Explicação da Eternidade”, José Luís Peixoto)
janeiro 18th, 2010 § § permalink
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
(“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, Ricardo Reis [Fernando Pessoa])
janeiro 12th, 2010 § § permalink
Se eu fosse eu, lhe daria palavras com mel. Criaria tranças em seus cabelos. Versos raros. Cumpridos. Compridos. Lisos. Absurdamente claros. A mim tão precisos. Mas, não… Não as jogue ainda. Que faria arranjos de flores. Primaveris. De brincadeiras, infantis. Uma grinalda e colar. Esmeradas, em sua fronte. Nunca um véu. Descobriria livre seu respirar.
Se eu fosse meu, lhe diria palavras leves. Como asas ao céu. Enredos de horizontes, belos e abertos, que têm como fonte a mesma de onde nasce o seu olhar. E então lavaria seus pés ao mar. E seus olhos, de ressaca, brilhariam de voar despertos. Viveria a cada dia a noite de seu luar. A dançar pela praia, sua saia criança com o vento, num desatento caminhar.
dezembro 26th, 2009 § § permalink
Temos aqui um impasse. Você escolheu me tirar da sua vida; eu escolhi ter você em tudo na minha. Você, me deixar; eu, lhe beijar. Você, não responder; eu, lhe escrever. Você, me esquecer; eu, lhe amar. Você, a cegueira; eu, o seu olhar.
dezembro 24th, 2009 § § permalink
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu,
depois, a minha irmã mais velha casou-se.
depois, a minha irmã mais nova casou-se.
depois, o meu pai morreu.
hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está na casa dela,
menos a minha irmã mais nova que está na casa dela,
menos o meu pai, menos a minha mãe viúva.
cada um deles é um lugar vazio
nesta mesa onde como sozinho.
mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo,
seremos sempre cinco.
(José Luis Peixoto)
novembro 27th, 2009 § § permalink
O último beijo tinha gosto de mar. Salgado das águas vindas de teus olhos doces. A correr em teu rosto amargo de dor.
Picante aflição. Mas, do coração, ainda algo de frescor e esperança. Talvez hortelã? E alecrim em teu perfume, tempero e saudade.
Tantos sabores… E a tua forma única e surpreendente de os misturar. Rara e deliciosa. Vê que isto também era amor?
outubro 31st, 2009 § § permalink
não vão se perder pelos dias nem tua pedra azul, teu carinho cor de infinito, nem o que foi dito, ou mesmo o não dito – teu charme maldito, teu olhar de desdém – tudo tem um pouco de impossível, esse teu verbo terrível, esta mania de ser uma ousadia, tua coragem eloqüente, tua finesse doente, tua bronca, teus gritos, tua boca. me tirou dos trilhos o brilho do teu olhar, teu carinho e jeito de me chamar. não vão se perder pelos dias, eu juro, teu mistério, teu choro mudo e sério, teu peito terno, teu desejo etéreo de calma, tua alma anarquista, teu olhar futurista, teu jeito absoluto, teus humores putos, tua fé resoluta, tua conduta. me desculpa as filosofias, mas elas também, não vão se perder pelos dias.
(“Pelos dias”, Mônica Montoro)
outubro 13th, 2009 § § permalink
Águia
Garra
Urgência
Arte
Voracidade
Imensidão
Vida
Amor
outubro 13th, 2009 § § permalink
Absurda
Densa
Rara
Intensa
Arredia
Nua
Amada