Cora Linda

março 7th, 2011 § 0 comments § permalink

Como se os olhos nascessem de um manto escuro, revelando suas cores
Onde nem se escondiam mas, distraídos, outros cerravam-lhes em pudores
Raro brilho, simples e enigmático, pintando as paisagens de sonhos e flores
Andando, criança curiosa e encantada, levada menina, a conquistar amores

Leva as palavras e a cada qual inventa uma nova sina: palco, voz, dançarina
Ilumina pelo caminho, onde pressinto e não adivinho, um mar e tanto carinho
Na ousadia, na fome, na surpresa… Na poesia, no nome, na beleza que fascina
Nesse meu rosto farto de dias, na minha face que cora, o olhar que ora imagina
Aonde me levarão suas mãos, anjo-passarinho, nas manhãs em que desatinas?

 

Marques

setembro 14th, 2010 § 0 comments § permalink

Mas, e se as manhãs falassem?
As noites inquietassem?
Raros são quem as ouvem.
Caros quem as entendem.
Ir e vir de corações. Entre eles, o teu.
A quem o dará? Quem o reviverá?

 

Adeus

agosto 21st, 2010 § 1 comment § permalink

"Slow dancing" por apoetsdream

Fotografia: “Slow dancing” por apoetsdream

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

Desde o teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

(Pablo Neruda)

 

A voz dos teus olhos

julho 18th, 2010 § 0 comments § permalink

nalgum lugar onde nunca estive, alegremente além de
qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio
em teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,
tu me abres sempre, pétala por pétala, como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se quiseres ver-me fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo por toda parte;

nada que possamos perceber neste mundo iguala
o poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com as cores de seus continentes,
restituindo a morte e o eterno em cada respiração

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; apenas uma parte em mim compreende
que na voz dos teus olhos cabem todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, possui mãos tão delicadas

(“Somewhere I Have Never Travelled”, e.e.cummings)

 

Gi em Paraty

junho 15th, 2010 § 0 comments § permalink

"your melody" por Jahblessme

Fotografia: “your melody” por Jahblessme

Para abrir o sorriso da Gi, menina diáfana, usaria metáforas, ousaria ações? Sem senões, quem sabe um olhar? Um caminhar beira-mar. E se ela sorrir para mim? Assim, sem falar nem fugir? Um pôr-do-sol em Paraty?

 

Naquele dia

maio 18th, 2010 § 0 comments § permalink

"Sadness- Diptych" por Demoneangelo

Fotografias: “Sadness- Diptych” por Demoneangelo

Naquele dia eu queria que você não aceitasse. Não só para si, para dentro, muda. Implodindo. Como quem, na verdade, não quer mas já aceitou. Não. Queria que se lançasse. Numa explosão. Cruzasse a linha do esperado. Do certo. Do correto. Me provasse errado. Queria berros. Choros. Tapas. Ofensas. Violência. Tiros. Muita gritaria. Sangue e loucura. Nem perda nem procura. O encontro. O espanto. Com o real. De nós. De tudo, o bom e o mau. Naquele dia eu queria ver: quem desconfiei aí dentro saltar para fora. Me impedindo. Abaixando o nariz e me pedindo, implorando. Xingando. Com raiva. Naquele dia eu queria que rasgasse minhas roupas. Perdesse o senso. A hora. O ridículo. A direção. Ficasse nua. Me ordenasse: “vem que vou ser sua, agora!” Mesmo sabendo que eu não iria, o inoportuno da situação. Naquele dia eu queria você sem verniz, crua. O gosto de lágrima na língua. De urgência no ato e no corpo. Naquele dia eu queria tesão, não teoria. Naquele dia queria não quem você acha que deve ser, mas quem você seria, se fosse. E não é porque não quer. Naquele dia eu queria desespero. A amargura áspera derramada sobre o que já foi doce e liso. Queria você inconformada, depravada, indignada. Naquele dia queria que tentasse tudo que fosse preciso para que eu ficasse. Queria mais que o silêncio. E o nada. O impasse. E o desenlace. Desarmada, nem pobre ou rejeitada, mais que a que dizia me amar, mais que a que me prendia, que me perdia: naquele dia eu queria de você, em você, a mulher que me amasse. Que me soltasse. Não a que achava me possuir, mas a que me ganhasse.

Naquele dia eu queria que algo em você não me deixasse partir.

 

MANHÊ

maio 9th, 2010 § 0 comments § permalink

Já não há mais tempo pra dores, feridas, dilacerantes amores. Talvez não seja o exato momento para confissão, latidos, uivos, excitação. Amanhã pode sobrar só o vento e mais nada, alma escancarada no bocejo da manhã. Mas, manhê, ainda tenho você, perdida, apaixonada e demodê. Já fiz muita confusão, torturas, brigas, histerias, porém nunca traição. A quem amei, foi de verdade; aparências ou coisas de minha idade, flertes, boleros, tangos, rocks, blues, ainda que simples vaidades. Minha alma ficou no campo. Eu vim para a cidade. Trouxe tudo, coração mudo, estridente voz rouca, gemidos, inocência louca e miados. Tudo começando. Ainda tudo parado. Poemas de coração fissurado. Discursos inacabados. Peite em transe, desejo ao léu: serão máscaras de hipocrisia vindas do céu? Não sou mais anjo, nem de papel. Já sofri bastante, já me casei e tenho anel. E ser poeta, ser atleta do sensível, futurista do invisível, não é coisa adolescente; é um verbo impertinente, tenente da utopia. Haja tristeza, haja alegria, do verso não me separo. houve sol, houve chuva e me faltou, manhê, um impossível amparo Valeu a pena. E paguei caro.
("MANHÊ", Mônica Montoro)
 

Carol

abril 26th, 2010 § 1 comment § permalink

Cara, a imensidade rara de um olhar
A vontade clara de aventura, e voltar
Ruas e estradas, em duas rodas, curvas
Onde a alma me levar, o pouso do meu vôo
Lá onde encontro, em mim tudo a encontrar

 

O Beijo

abril 19th, 2010 § 0 comments § permalink

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior… Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto…

(“Um Beijo”, Olavo Bilac)

 

Além

março 29th, 2010 § 2 comments § permalink

"Refletions simples" por BigboyDenis

Fotografia: “Refletions simples” por BigboyDenis

Não fui criado para fazer sentido. Fui feito de sentimento, para ser sentido. Não nasci criado, nem senhor. Nasci humano: honra de homem, coração de mulher, olhos de criança. Misto de flor com beija-flor. Esperança de rio, sonho de mar. Um furor de querer ver sempre mais do que a vista alcança. Nem sempre bem-educado, nem sempre mal-criado. Nunca curado, de mal de amor. De bem com a vida, nem sempre bem-amado. Em certas manhãs, de bom humor. Encantado, isso sempre. Por carinhos e manhas. Enredado de maldades cândidas e de ingênuas bondades. Fiz de cada mulher minha morada e cidade. Nenhum outro interesse senão amar. Nada quis do que não dei. Acreditar é não ver, ou ver: verdadeiramente. Além. Por escolha ou acidente. Tímido ou à vontade, às vezes cantava rouco, noutras errava louco, que seja… Fui sempre mais do que consegui ser. Fui tudo. E foi tão pouco.