Carta a uma jovem poeta – I

fevereiro 26th, 2007 § 0 comments § permalink

"Tuscany Memories" por Arian

Pintura: “Tuscany Memories” por Arian

Querida e amada poeta,

Há pouco tua carta encontrou-me. Ao abri-la já não eram meus olhos que a lia. Tampouco as palavras formavam apenas frases. Cada letra nela alcança um sentido maior em mim. Sou abraçado por cada palavra que tuas mãos, delicadas e belas, em zelo e afeto, a mim escrevem. Formam-se delas sentimentos indescritíveis, muitos dos quais desconsiderava a existência ou ignorava poder senti-los.

Que tu presenteias-me com estas possibilidades, com estas preciosidades. Esta surpresa e constância de magia, encanto e descoberta desde o primeiro momento em que adentraste minha vida e em tua vida permitiste-me a entrada. Mas a ti, minha bela, digo em toda a verdade, que o maior e mais valioso presente que dás é esta doação natural, espontânea e sincera de ti mesma. O desprender de ti em cada palavra, em cada gesto, em cada pensamento, em cada sentimento… E eis que este desprendimento em nada te faz falta, ao contrário, te tornas ainda maior e imensa, como infinita fonte de água límpida a molhar meus lábios em tórridos dias de verão. Ou como chama a aquecer-me o inverno, a dar-me abrigo e aconchego do frio.

Vês que tento metáforas? Mas são insuficientemente pequenas diante e jamais alcançam o que realmente é. Este ofício que temos e que tu o conheces tão bem e o exerce de forma exuberante e surpreendente, de traduzir em palavras o que sabemos ser intraduzível. A poesia é um retrato. Tornamos tintas as nossas emoções. E, entretanto, o pintor jamais alcança a perfeição na tela. Onde a realidade é inalcançável para ser retratada, e o sonho sim, alcança-se, e nela, na realidade, pode ser visto e realizado. Escrever é esta maneira que encontramos de documentar, pela força das palavras, os milagres que só poetas conseguem presenciar. E, mais que presenciamos, tornamo-nos deles criadores, partes integrantes de nós, e nós deles.

Enquanto minha mente divaga, como é de meu costume e de teu conhecimento, tentando explicar o coração, meu coração, irmão da minha mente, a respeita, a ela e ao seu esforço… Mas entende muito mais eficazmente e com impressionante desenvoltura tudo o que dizes. E até o que não dizes. Porque o retrato jamais é o rosto. A mente decifra a imagem. O coração sente a textura. Mas só tu que poderias ensinar à minha mente e ao meu coração que não há incompatibilidade entre eles, que não há maior entre os dois; que poderias ensiná-los a cumplicidade e a sintonia entre si. Um é professor e aluno do outro. Não foram feitos para caminharem separadamente. Aprendem cada dia melhor isto de ti. E ambos, minha querida, percebem-te tão bem. Embora o coração sinta, é a mente que dá veracidade ao sentimento. Pois o verdadeiro amor jamais é cego. Amar é estar lúcido.

Lúcidos de uma forma tão intensa, plena e total, que inebria. O verdadeiro amor… Ah, quantos dizem buscá-lo ou pretendem alcançá-lo. Outros tantos afirmam tê-lo encontrado. É do caminho e do aprendizado que assim seja. Dirão: “está aqui!”, “está ali!”, “é desta forma que se parece!”… Não devem ser tomados em conta. Pois não suportariam-no, o verdadeiro, caso o encontro entre si antes fosse. Mas é um bom caminho. A vida não é teoria. Deixe-os praticar. Os erros também são belos, pois através deles somos conduzidos ao que é certo. Também nós nesta busca já erramos por quantas vezes?

Mas, o amor, aprenderão, não quer a casa especialmente decorada e a nós vestidos para um ocasião extraordinária, para assim visitar-nos. Só nos vem quando já temos a compreensão de que estar vivo por si só é extraordinário, e mágico; que todo momento é especial. Visita-nos sim, mas quando nossa casa é espontaneamente decorada e estamos belamente vestidos, naturalmente, sem já nos apercebermos disto, porque não estamos assim: nos tornamos assim. Então o amor poderá chegar em qualquer momento, trazendo com ele o que sempre pressentimos existir, mas que não poderíamos antes vivenciar. Sendo assim, não virá apenas visitar-nos. Fará de nós sua morada. Para que a vida ganhe encantos, sensações e experiências que antes nos seriam impossíveis. E foi desta forma, linda poeta, que o amor em nós veio a habitar.

Não obstante este encontro e esta percepção, o amor verdadeiro não é o fim. É apenas o início de tantos outros caminhos, mais vívidos, mais desafiadores e mais belos. E, por serem assim, necessitam dois para que neles possa-se caminhar. É este agora, bela amada, o nosso aprendizado: caminhar por eles. Amamos a vida, amamos a descoberta, amamos desafios… Queremos e merecemos ir mais longe. Tenho plena confiança em nossa capacidade de percorrê-los, de aprendê-los, enxergá-los e valorizá-los com o valor que verdadeiramente têm. Que sejam intensos, imensos e infinitos, como a vida em nós e este nosso amor podem e merecem ser.

Por fim, meu anjo, desejo que estas minhas palavras esbocem por mim o que forçosamente espero para pessoalmente fazer. Que acarinhem a tua face. Beijem-na… Mais que ela, os teus ombros, o teu colo, o teu pescoço, a tua boca; o teu belo corpo… Inteiro, inteira. Que as sinta como carícias das minhas mãos, que sem a tua pele sedentas estão, em saudades indizíveis. Que tornem-se como mensageiras do meu amor, da minha paixão, do meu desejo; que por ti os sinto. A antecipar e a anunciar minha chegada. Que será para breve, meu amor. Muito em breve. Não apenas palavras escritas, não apenas retratos… Mas face a face. Olhos nos olhos. Lábios nos lábios e a pele na outra pele. Muito embora esta temporária distância, Paris e Bucine tornam-se próximas, pois tu és a minha cidade, meu lar e minha morada. Minha alma permanece contigo e meu coração repleto de ti. Desde sempre.

Paris, 26 de fevereiro de 1907.

 

Girl with a Pearl Earring

outubro 7th, 2005 § 1 comment § permalink

"Girl with a Pearl Earring" por Johannes Vermeer van Delft

Pintura: “Girl with a Pearl Earring” por Johannes Vermeer van Delft

Vejo os canais de Delft, pessoas indo e vindo, a água, as mercadorias. Meus pensamentos apenas remetem-me aos teus inocentes olhos, tua rubra e delicada boca, a palidez instigante de tua pele.

Brincos de pérolas estão deveras longe de tua beleza. Fantasio não ser este pintor, não ter casa, não ter esposa nem filhos. Sonho ser teu, aquele moço, o açougueiro. Sonho seres minha. E és ainda tão menina.

Morrerei nesta prisão que construí para mim mesmo. De vender pinturas, pintar o que não quero, depender delas para a sobrevivência, depender de favores, de boas vontades. Trocaria tudo pela liberdade. De estar contigo.

Mesmo assim, pintaria a ti com os brincos de pérolas. Não num lugar fechado, mas nos campos. Nos lindos campos por onde andas. Não, não pinto uma criada, mas sim a mulher que amo, e tão bem aprendeu a conhecer as cores, as tintas e a mim.

E neste retrato, como um impossível romance escondido, guardo a lembrança, não só de ti, mas de tudo que não vivi. Por breves épocas pintaste minha vida com cores lindas que jamais as conheci, nem as conhecerei.

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Inspirado no quadro (e na história por trás do quadro) “Girl with a Pearl Earring” de Johannes Vermeer van Delft.
Publicado em 2007 no livro “Experimentânea 6″ editado pela Academia Araçatubense de Letras.