Pintura: “Tuscany Memories” por Arian
Querida e amada poeta,
Há pouco tua carta encontrou-me. Ao abri-la já não eram meus olhos que a lia. Tampouco as palavras formavam apenas frases. Cada letra nela alcança um sentido maior em mim. Sou abraçado por cada palavra que tuas mãos, delicadas e belas, em zelo e afeto, a mim escrevem. Formam-se delas sentimentos indescritíveis, muitos dos quais desconsiderava a existência ou ignorava poder senti-los.
Que tu presenteias-me com estas possibilidades, com estas preciosidades. Esta surpresa e constância de magia, encanto e descoberta desde o primeiro momento em que adentraste minha vida e em tua vida permitiste-me a entrada. Mas a ti, minha bela, digo em toda a verdade, que o maior e mais valioso presente que dás é esta doação natural, espontânea e sincera de ti mesma. O desprender de ti em cada palavra, em cada gesto, em cada pensamento, em cada sentimento… E eis que este desprendimento em nada te faz falta, ao contrário, te tornas ainda maior e imensa, como infinita fonte de água límpida a molhar meus lábios em tórridos dias de verão. Ou como chama a aquecer-me o inverno, a dar-me abrigo e aconchego do frio.
Vês que tento metáforas? Mas são insuficientemente pequenas diante e jamais alcançam o que realmente é. Este ofício que temos e que tu o conheces tão bem e o exerce de forma exuberante e surpreendente, de traduzir em palavras o que sabemos ser intraduzível. A poesia é um retrato. Tornamos tintas as nossas emoções. E, entretanto, o pintor jamais alcança a perfeição na tela. Onde a realidade é inalcançável para ser retratada, e o sonho sim, alcança-se, e nela, na realidade, pode ser visto e realizado. Escrever é esta maneira que encontramos de documentar, pela força das palavras, os milagres que só poetas conseguem presenciar. E, mais que presenciamos, tornamo-nos deles criadores, partes integrantes de nós, e nós deles.
Enquanto minha mente divaga, como é de meu costume e de teu conhecimento, tentando explicar o coração, meu coração, irmão da minha mente, a respeita, a ela e ao seu esforço… Mas entende muito mais eficazmente e com impressionante desenvoltura tudo o que dizes. E até o que não dizes. Porque o retrato jamais é o rosto. A mente decifra a imagem. O coração sente a textura. Mas só tu que poderias ensinar à minha mente e ao meu coração que não há incompatibilidade entre eles, que não há maior entre os dois; que poderias ensiná-los a cumplicidade e a sintonia entre si. Um é professor e aluno do outro. Não foram feitos para caminharem separadamente. Aprendem cada dia melhor isto de ti. E ambos, minha querida, percebem-te tão bem. Embora o coração sinta, é a mente que dá veracidade ao sentimento. Pois o verdadeiro amor jamais é cego. Amar é estar lúcido.
Lúcidos de uma forma tão intensa, plena e total, que inebria. O verdadeiro amor… Ah, quantos dizem buscá-lo ou pretendem alcançá-lo. Outros tantos afirmam tê-lo encontrado. É do caminho e do aprendizado que assim seja. Dirão: “está aqui!”, “está ali!”, “é desta forma que se parece!”… Não devem ser tomados em conta. Pois não suportariam-no, o verdadeiro, caso o encontro entre si antes fosse. Mas é um bom caminho. A vida não é teoria. Deixe-os praticar. Os erros também são belos, pois através deles somos conduzidos ao que é certo. Também nós nesta busca já erramos por quantas vezes?
Mas, o amor, aprenderão, não quer a casa especialmente decorada e a nós vestidos para um ocasião extraordinária, para assim visitar-nos. Só nos vem quando já temos a compreensão de que estar vivo por si só é extraordinário, e mágico; que todo momento é especial. Visita-nos sim, mas quando nossa casa é espontaneamente decorada e estamos belamente vestidos, naturalmente, sem já nos apercebermos disto, porque não estamos assim: nos tornamos assim. Então o amor poderá chegar em qualquer momento, trazendo com ele o que sempre pressentimos existir, mas que não poderíamos antes vivenciar. Sendo assim, não virá apenas visitar-nos. Fará de nós sua morada. Para que a vida ganhe encantos, sensações e experiências que antes nos seriam impossíveis. E foi desta forma, linda poeta, que o amor em nós veio a habitar.
Não obstante este encontro e esta percepção, o amor verdadeiro não é o fim. É apenas o início de tantos outros caminhos, mais vívidos, mais desafiadores e mais belos. E, por serem assim, necessitam dois para que neles possa-se caminhar. É este agora, bela amada, o nosso aprendizado: caminhar por eles. Amamos a vida, amamos a descoberta, amamos desafios… Queremos e merecemos ir mais longe. Tenho plena confiança em nossa capacidade de percorrê-los, de aprendê-los, enxergá-los e valorizá-los com o valor que verdadeiramente têm. Que sejam intensos, imensos e infinitos, como a vida em nós e este nosso amor podem e merecem ser.
Por fim, meu anjo, desejo que estas minhas palavras esbocem por mim o que forçosamente espero para pessoalmente fazer. Que acarinhem a tua face. Beijem-na… Mais que ela, os teus ombros, o teu colo, o teu pescoço, a tua boca; o teu belo corpo… Inteiro, inteira. Que as sinta como carícias das minhas mãos, que sem a tua pele sedentas estão, em saudades indizíveis. Que tornem-se como mensageiras do meu amor, da minha paixão, do meu desejo; que por ti os sinto. A antecipar e a anunciar minha chegada. Que será para breve, meu amor. Muito em breve. Não apenas palavras escritas, não apenas retratos… Mas face a face. Olhos nos olhos. Lábios nos lábios e a pele na outra pele. Muito embora esta temporária distância, Paris e Bucine tornam-se próximas, pois tu és a minha cidade, meu lar e minha morada. Minha alma permanece contigo e meu coração repleto de ti. Desde sempre.
Paris, 26 de fevereiro de 1907.

