Outra forma de ser

março 30th, 2007 § 0 comments § permalink

Há numa música da banda “Biquini Cavadão” uma frase fortíssima: “Se eu pudesse escolher outra forma de ser, eu seria você.” Pense… Para qual pessoa que já esteve ou está na sua vida você a diria? Para ninguém? Para uma em especial? Essa frase lembra outra música e outra frase: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” (“Dom de Iludir” de Caetano Veloso.) Temos uma coisa conosco que é pessoalíssima e intransferível: sermos quem somos. Com tudo que uma vida de uma pessoa é, acho difícil que alguém que realmente viva queira ser outro que não ele mesmo. Não importa quão dolorosa ou quão deliciosa seja sua vida. Há, é claro, os que trocariam a vida pela do transeunte mais próximo… Mas aí é outra história. A pessoa pode estar em depressão ou não estar vivendo mesmo, de verdade, sua vida.

Amo pessoas… De várias maneiras. Pessoas que ainda estão aqui, outras que já foram. Minha mãe é um exemplo nítido de amor que sinto. (Sim, eu uso o tempo presente mesmo sabendo que ela está em outro lugar agora.) E com todo o amor que sinto por ela e toda a admiração que tenho, da pessoa magnífica que é… Não diria a frase inicial pra ela. Nem pra ninguém que já esteve ou não em minha vida. Nunca encontrei uma única pessoa que, por mais que eu a amasse ou a admirasse, trocaria ser quem sou por ela. Não quero ser outra pessoa que não eu mesmo. Mesmo com todos os meus defeitos. Mesmo com todas as minhas qualidades. Então, como percebo, não é uma questão de amor, de quanto amor… De admiração, de quanta admiração. É preciso além dessas coisas algumas outras.

Um anjo poderia chegar a mim e dizer: “A partir de hoje você não poderá ser mais você. Não há como evitar isso. Você terá de ser outra pessoa. Escolha…” Até há algum tempo não teria a quem escolher. Por mais amor ou admiração que tivesse por alguém em especial. Se o anjo então sugerisse quem fosse, minha resposta, independentemente de quão valorosa a pessoa, seria: “Não, nem pensar!”. Mas hoje eu diria que, numa situação hipotética dessas, não podendo mais ser quem eu sou, há sim uma pessoa que eu seria. Com a maior serenidade do mundo diria seu nome. Então você poderia perguntar: “Ah… Então você trocaria quem é por outra pessoa?” Não… Não trocaria. Disse que numa situação hipotética onde não pudesse ser mais eu, seria ela. Tranqüilamente. Por quê?

A afirmação não significa que eu queira ser igual a esta outra pessoa. Amo como sou, amo como ela é. E somos diferentes em muitas coisas. (E, é claro, termos afinidades em muitas outras também.) Não é este o caso. Gosto da diversidade. Gosto das diferenças. E as amo, e as respeito. Também não seria por falta de amor próprio, muito pelo contrário… Nem por mero entusiasmo, ilusão ou cegueira. Tem muito a ver com lucidez, numa forma muito mais ampla e plena. Que também diferencia em muito tudo que vivi antes. Todos temos caminhos muito particulares, específicos e únicos. Tudo que faz parte da construção de quem somos. Da construção da vida pela qual somos. Mas, então… O que faz eu poder dizer a esta pessoa: “Se eu pudesse escolher outra forma de ser, eu seria você.”?

É uma pessoa que enxergo. Enxergo quem ela é. Com a mesma nitidez que enxergo quem sou. Enxergo também, através dela, seus sentimentos, seus caminhos, suas escolhas… Suas dores e delícias. O que faz ela ser quem é. O que faz a vida pela qual ela é ser o que é. E isto tudo me desperta tanto respeito e integração como se os sentimentos, caminhos e escolhas fossem os meus próprios. Mesmo que os meus sentimentos, caminhos e escolhas pudessem vir a ser outros, amo os dela. Respeito. Admiro. Enxergo. Vibro. Como se meus fossem. Então posso enxergar o mundo através da sua visão, distinta da minha. E vê-lo também rico. Uma pessoa cujas vivências, experiências, sentidos e sentimentos têm para mim o mesmo valor que os meus.

Hoje entendo que isto pode ser feito, sem perder a individualidade e a liberdade. Sermos sem precisar mudar pra satisfazer outra pessoa. E sermos mais, aprendermos mais, irmos mais longe. Crescermos. Através de nós. E através do outro. Também pelo outro e para o outro. Em reciprocidade: um universo a se abrir para o outro. Formando duas pessoas, três universos e um só.

(Colaborou Bianca Helena Pontes.)

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Publicado em 01/04/2007 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Da Descoberta do Amor

fevereiro 23rd, 2007 § 0 comments § permalink

Eram as palavras… Mas antes delas, o sentimento que as escreveu. “Não preciso que você me compreenda.” Paira, sobretudo, dentro e em tudo a sintonia. A energia. Magia. Que não precisam mesmo ser explicadas tampouco compreendidas. Mesmo porque nenhum espaço seria largo ou profundo o suficiente para compreendê-las. Devem ser vividas, saboreadas, degustadas. Raras que são. Preciosas e infinitas. Vívidas e impetuosas como os passos da dança, negro e rubro flamenco. Provocante e sensual. Também um tango em desafio e beleza… Sedução natural e em seu sentido mais nobre e encantador. Verdadeira e misteriosa. Sempre honesta.

Eram os diálogos… Mas antes deles, o sentimento que os dizia. “Não preciso de falsos nem verdadeiros elogios.” Enxergar além. Enxergar quem se vê, quem se mostra. Quem se lança, e não tem medo de viver. A vida que construiu quem se tornou. Quem criou e cria, em bela arte, sua vida. Os caminhos e as escolhas e os destinos que trouxeram até aqui. Há o ver neste sentido mais amplo, mais nítido e irrestrito. A claridade, liberdade para sentir… De olhar, e constatar, e dizer. Olhos que não precisam voltar-se para baixo nem para cima. Frente a frente. Os valores, os ideais, as certezas, as dúvidas, as buscas, as perdas, os gostos, os desgostos, os sonhos e as realidades. A riqueza das personalidades, pessoalidades, tesouros construídos por boas vontades e grandes coragens. Mesmo quando semelhantes. Mesmo quando diferentes. Sem padrões, sem senões. Em todas as nuances, em todas as cores. Imensos e grandiosos, sempre. Simplesmente se enxergam.

Eram as melodias… Mas antes delas, o sentimento que as tocava. “Não preciso de gratificações.” Acontecer, porém, a troca generosa, a gentileza espontânea. Grandes e valiosos presentes, até nas mais sutis e pequenas coisas. Doação. Boa disposição. Disposição. Dispor de si, do tempo, da atenção. Do cuidado, da boa preocupação. Do respeito. Da consideração. Importantes um ao outro. E a si mesmos. O crescimento conjunto. A admiração recíproca. A reciprocidade sem medidas e sem molduras. O engrandecimento sem vaidade. O aprendizado com humildade. A vocação em aprender o outro. E assim, a si. Sem sacrifícios. Se dispor. Se despir. Leves e completamente. Sempre. Inteiros e inteiramente. Nus.

Eram as vozes… Mas antes delas, o sentimento que as ouvia. “Eu preciso que ouça as palavras que não sei dizer.” Ouvidas. Muito mais que escutadas. Muito além dos ouvidos, ecoar, ressoar, penetrar, fazer vibrar na alma. Reconhecer, entre bilhões de idiomas, o outro em sua língua mãe e nativa. Reconhecer-se também no silêncio, coberto de respostas gratas e novas perguntas. Estimulantes. Fascinantes. Sem o tom inquiridor, mas o dom da procura, da curiosidade, da vontade de ir além. Compartilhar o individual. Assimilar individualmente o descoberto em conjunto. Segurança em duas mãos. Dadas. Cúmplices e parceiros… Um ganha, outro ganha. E comemoram-se. Um perde, o outro perde. E consolam-se. Uma equipe. Sempre. Sem perder-se um do outro e de quem mesmo cada um é.

Eram os olhares… Mas antes deles, o sentimento neles. “Preciso que respeite minha fragilidade.” Espaço para ser. Para sentir. Para olhar. Serem vistos também. Sentidos. Para viverem. Para serem vividos. Espaço para sonhar, crescer, realizar, lutar… Para descansar. Espaço para andar, para escolher, para decidir, para opinar, para discordar… Para concordar. Para criar. Espaço também para ficarem sós. Jamais desamparados. A certeza da companhia. Do envolvimento. Do comprometimento. Do compromisso sem burocracias, sem cobranças, sem pressões, sem obrigações, sem papéis passados, engomados presentes ou limitados futuros. Mas a percepção maior. Da vivência do passado. Da poesia do presente. Da vontade pelo futuro. Amplos, abertos, infinitos. Mais que um dia-a-dia, descobrir e descobrir-se, sempre cativantes, dia após dia.

Eram as carícias… Mas antes delas, todo o sentimento a transbordar por elas. “Eu preciso do humor e da alegria que me fazem gargalhar a alma.” Incondicionais. Vitais. Não-perecíveis. Totais. Mais que eram: desde sempre são. O sentimento… Desde sempre, amor.

(As citações entre aspas e outras referências são de texto escrito pela poeta Bianca Helena Pontes.)

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Publicado em 24/02/2007 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Acordar meu coração

janeiro 27th, 2007 § 0 comments § permalink

Anoitece a cidade, ruas que passam por mim
Avenidas belas, nuas… Verdades cruas, sem fim
A noite tece, em tramas complexas, amores, dramas
Conversas nos corredores, janelas, inversas dores

Pra acordar seu coração, recordar de tantas flores
Pra recortar as estrelas, céu e chão de cobertores
Pra despertar sua paixão, revirar a sua cama
Lhe dedilhar num violão, pra lhe tocar: uma canção

Permanecem a vontade, manhã, perfume, jasmim
De quando suas mãos se punham leves em mim
Aconteceu de ser assim, se perder em quem se ama
Perversas, avessas dores, pelas ruas os rancores

Pra retomar a emoção, entornar todos licores
Pra terminar esse jogo onde não há vencedores
Pra recobrar uma razão, apagar-se dessas chamas
E só lembrar uma canção, num dedilhar de violão

Anoitece a cidade, ruas passam por mim
Avenidas belas, nuas… Verdades cruas, sem fim
Anoitecem tramas, amores, dramas
Conversas, corredores, janelas, inversas dores

Pra acordar seu coração, recordar de tantas flores
Pra recortar estrelas, céu, chão de cobertores
Pra despertar sua paixão, revirar a sua cama
Lhe dedilhar num violão, pra lhe tocar: uma canção

Permanecem a vontade, manhã, perfume, jasmim
De quando suas mãos se punham leves em mim
Aconteceu de ser assim, se perder em quem se ama
Perversas, avessas dores, pelas ruas os rancores

Pra retomar a emoção, entornar todos licores
Pra terminar o jogo onde não há vencedores
Pra recobrar uma razão, apagar-se dessas chamas
É só lembrar uma canção, num dedilhar de violão

(Letra: Vanderlei Martinelli [27/01/2007] / Música: Lu Dias [28/01/2007])

 

Quintanas e quintais…

dezembro 26th, 2006 § 0 comments § permalink

- Tudo que eu escrevo é autobiográfico.
- Eu me coloco nas histórias até quando quero escrever ficção.

- Que coisa isso, né? Eu também não sei não falar de mim.
- Será que é porque Narciso acha feio o que não é espelho? Mas não acho que somos narcisistas…

- Acho que eu só sei escrever assim porque é o único assunto que conheço minimamente bem pra falar a respeito. Não sei o suficiente pra ir além disso.
- Adorei a explicação… Vou usá-la também!

- Vez ou outra me arrisco a falar de alguém muito próximo. Mas no geral só dá pra falar do meu quintal mesmo.
- E do varal no quintal…

- É…
- Onde a gente pendura as roupas e os sentimentos.

- Será que é quintal porque deixamos por último?
- Quintal é onde a casa é livre… Não tem a obrigação das paredes.

- O blog faz bem este papel. Acho que vou mudar pra “mi quintal, su quintal”. Tinha outro antes deste, mas é engraçado como chega a hora de se despedir.
- Quintal é onde a gente pode brincar, né? Dentro de casa era sempre proibido…

- É verdade… É de onde eu olho o céu.
- Onde o céu encontra-se no seu olho.

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(Diálogo entre Bianca Helena Pontes e Vanderlei Martinelli, em 26/12/2006 entre 22h33 e 22h39.)

 

Amor sem fim

dezembro 21st, 2006 § 0 comments § permalink

“Amar se aprende amando.” Você já deve ter lido e ouvido isto muitas vezes. Eu mesmo já disse isso muitas vezes… E acreditava que era assim. Pois agora eu quero dizer o oposto do que eu disse antes. Não sendo rei e colocando Raul Seixas à parte, minha palavra pode voltar atrás sempre. Porque sempre posso estar enganado. Posso sempre estar errado.

Amar não se aprende. Alguém ensinou você a respirar? Não. E você respira. Alguém ensinou você a se alimentar? Ah, você dirá que ensinaram sim. Os talheres, os copos, a boca fechada ao mastigar, o guardanapo… Balela! Ensinaram a você um comportamento social adequado na hora de comer. Porque se alimentar você já sabia. Jamais morreria de fome caso não soubesse regras de etiqueta.

Amar não se aprende. Só se ama amando. É algo tão natural em nós como respirar, como se alimentar, como fazer sexo. Não é preciso aprender, apenas sabemos. “Sexo eu aprendi!”, dirá você. Aprendeu não. Se considera um “expert” sexual? Faça sexo com uma outra pessoa. Descobrirá que é um analfabeto caso não entenda que sexo não se aprende nem se ensina, se faz e se deixa fazer. Melhor: se vive e se deixa viver-se.

Eu também dizia que a paixão era inevitável. Mas que o amor era escolha. Ledo engano meu. Quero também desdizer tudo o que eu disse antes. O amor não é escolha mesmo. É tão inevitável quanto a paixão. O fruto da paixão que era flor. Amar não faz parte de nenhum planejamento. Racionalizou o amor? Tentou explicar porque ama? Tentou entender? Tentou justificar? Tentou criar o roteiro de como será? Tentou contabilizar o quanto está dando e o quanto vai receber? Então não ama. Tem até vontade de amar, mas não ama. Se tem dúvidas, é porque não ama.

Amor não dá tempo pra pensar. Não se pensa no amor, a pessoa amada é o pensamento. O sorriso dela é o alimento. Os olhos são a respiração. Sexo é o corpo dela. A vida é a união das mãos. Seguras e cúmplices. Até o fim. Fim que também não pode ter sido escolha, de um ou de outro, muito menos de ambos. Quem escolheu não amou. Amor de verdade não termina. É apenas bruscamente interrompido, contra a vontade, em piadas de mal gosto contadas pelo destino. Amor não tem fim… Continua em outra vida.

Amar não é escolha. É destino. É uma condição incondicional. É um dom. A nós dado, para por nós ser ofertado. É o jeito de Deus dar um presente ao outro usando as nossas mãos. Se mostrar presente pelo nosso coração. Amor não se aprende. Como não se aprende o fogo. Como não se prende o mar. Como não se escolhe a terra. Como não se impede o vento de soprar tudo para longe… Para depois voltar. Pulsar livre o coração. Para amar. De novo. E sempre. Mesmo novo. E novamente sem escolha e sem senão.

Acredito que se ama poucas vezes de verdade na vida. Algumas pessoas já riram-se de mim por eu ter dito isto. Não as julgo. Parabéns para elas que conseguem amar uma nova pessoa a cada semana. Eu não consigo. Nem um único amor a vida toda (embora fosse lindo), nem dezenas de amores (embora seja duvidável). As pessoas têm o costume de ir para extremos. Gosto do caminho do meio.

Um amor de verdade, porém, pode não ter fim. Mas quando é correspondido, quando duas pessoas se amam de verdade e na mesma intensidade. Quando há reciprocidade. Olhar para o outro e pelo outro. Porque o amor exige cuidado. Exige atenção, dedicação, disponibilidade, generosidade, admiração, respeito. E isto, quando é amor mesmo, não requer esforço algum para ser feito. É natural. Como respirar.

Você respirar de uma hora para a outra, após nove meses sem ter feito isto dentro da barriga da sua mãe é praticamente um milagre. Quando puder, procure saber tudo que acontece em segundos quando uma criança nasce. O que tem de mudar rapidamente no corpo dela para que ela respire usando os pulmões, por exemplo. É uma prova que milagres acontecem todos os dias.

Milagre lembra magia. Que lembra que no amor deve haver sempre magia e encanto… E a correspondência. Quase um milagre encontrar isto, mas não é impossível. Encontrar tudo numa pessoa, mesmo ela sendo cheia de defeitos. E saber que esta pessoa sente o mesmo por você, mesmo com todos seus defeitos. E sente na mesma intensidade e na mesma freqüência. Este amor não terminará nunca.

(Colaborou: Bianca Helena Pontes.)

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Publicado em 23/12/2006 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Amor sem fim

dezembro 20th, 2006 § 0 comments § permalink

Gostaria agora de complementar e divagar sobre o que eu disse antes. No texto que escrevi dá a impressão de se amar apenas uma vez na vida. Bem… Eu acredito que se ama poucas vezes de verdade na vida. Algumas pessoas já riram-se de mim por eu ter dito isto. Não as julgo. Parabéns para elas que conseguem amar uma nova pessoa a cada semana. Eu não consigo.

Nem um único amor a vida toda (embora fosse lindo), nem dezenas de amores (embora seja duvidável). As pessoas têm o costume de ir para extremos. Gosto do caminho do meio. E, voltando ao que escrevi, talvez você pergunte: “Mas você não disse que o verdadeiro amor não tem fim? Como pode-se amar outras pessoas então?”

Eu falava que o amor não tem fim e não tem mesmo. Mas quando é correspondido, quando duas pessoas se amam de verdade e na mesma intensidade. Quando há reciprocidade. Olhar para o outro e pelo outro. Porque o amor exige cuidado. Exige atenção, dedicação, disponibilidade, generosidade, admiração, respeito. E isto, quando é amor mesmo, não requer esforço algum para ser feito. É natural. Como respirar.

Você respirar de uma hora para a outra, após nove meses sem ter feito isto dentro da barriga da sua mãe é praticamente um milagre. Quando puder, procure saber tudo que acontece em segundos quando uma criança nasce. O que tem de mudar rapidamente no corpo dela para que ela respire usando os pulmões, por exemplo. É uma prova que milagres acontecem todos os dias.

Milagre lembra magia. Que lembra que no amor deve haver sempre magia e encanto… E a correspondência. Quase um milagre encontrar isto, mas não é impossível. Encontrar tudo numa pessoa, mesmo ela sendo cheia de defeitos. E saber que esta pessoa sente o mesmo por você, mesmo com todos seus defeitos. E sente na mesma intensidade e na mesma freqüência. Este amor não terminará nunca.

E quando apenas um ama? Então aquele que ama, com o tempo, se sentirá frustrado, triste e doente, sem haver a correspondência. E o que não ama se sentirá exausto, cobrado e acusado por não corresponder. Principalmente se iludir a si mesmo e ao outro, dizendo que ama. Pior é admitir que não ama só muito tempo depois (a dúvida é o esboço de admitir). O estrago já terá sido feito.

Amor de mão única termina? Sim de uma forma, não de outra. O amor percorrerá outros caminhos. Será um misto de dor, saudade e decepção pelo que poderia ter sido e não foi. É tão difícil admitir que amou sem ser amado quanto é difícil admitir que se tentou amar sem conseguir. Mas quando quem amou entender de vez que não tinha mesmo jeito, que as pessoas não amam só porque são amadas, que ninguém é obrigado a amar ninguém, estará então livre. Restarão as boas lembranças dos sentimentos, a gratidão pelos bons momentos, pela felicidade que um dia foi e seria possível. Gratidão é uma outra forma de amor.

Agora, bom mesmo é amar e ser amado. E pronto. Não fico à procura de um novo amor, não escolho a quem amar. Mas como poeta, romântico incurável, tenho esta esperança, utópica talvez, de um dia isto ainda acontecer: amar e ser amado. Completa, imensamente e sem fim. O que não significa que eu ame a idéia de amar simplesmente. Quando amo, amo a pessoa. De verdade. Inteira e inteiro. Incondicionalmente. Sobram dedos numa única mão se for contar, porque foram poucas. Mas cada mulher que amo é a última.

E por ser a última, eu sempre insisto, persisto até não dar mais. Porque quero acreditar que a outra pessoa me ama ainda porque disse antes que amava, porque por algum tempo parecia demonstrar amor. Que as declarações de amor foram todas verdadeiras. Que, se foi amor mesmo, não morreu. Ressuscitará. Afinal amor é magia, é milagre… Como é milagre alguém ressuscitar após o terceiro dia e tanta gente acreditar, enfim.

Por isso é tão difícil eu conseguir desistir. Quero ter a consciência tranqüila que tentei tudo que podia. Que dei todas as oportunidades, que considerei todas as possibilidades… Pelo menos as que estavam ao meu alcance. Quero dar o que eu mesmo gostaria de ter, fosse a situação contrária. Há algo mais lindo que alguém despertar para o amor? Descobrir que ama de verdade? Não consigo reter este presente apenas para mim.

Mas amar não é escolha. Não se obriga ninguém a aceitar presentes. E assim um dia eu também desisto. Porque acaba por ser injusto comigo e com a outra pessoa. Porque amar é deixar livre. É ser livre. Porque é preciso seguir em frente, com ela (ê coisa boa) ou sem ela (ê pena). Porque nada é por acaso. Porque não se ama por acaso. E porque amar a si mesmo também não é escolha. É condição primeira para toda e qualquer forma de amor.

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Colaborou Bianca Helena Pontes.