Contagioso

maio 12th, 2011 § 2 comments § permalink

Não entendo. Trago na alma, na pele e nos olhos essa paixão, essa singela vontade de compartilhar a beleza, o encanto, o assombro… A alegria. A necessidade louca, ingênua e ridícula de acreditar, criar e viver milagres, juntos. E, ao mínimo esboço de aproximação, as pessoas fogem. Sem mais nem menos. Cheguei a essa conclusão hoje: amor é doença grave e eu sou perigosamente contagioso.

 

Mendigo

abril 15th, 2011 § 1 comment § permalink

Cansado de estender a mão, assim, tentando tocar um coração. Uma vida. Uma pessoa. Sei de tanta coisa. Dos milagres que acontecem quando duas mãos se tocam. Quando dois corações se permitem ser trocados. Quando o sorriso se abre junto do abraço. E alguém lhe recebe para dentro de sua vida. Sim, eu sei de todos os milagres que não sei como serão, mas sei que serão, que são quando alguém se abre assim para o outro. Continuo… Não sei até quando. Porque estou mesmo cansado de estender a mão para tocar alguém. E não ter a gentileza de ser tocado de volta. De passar as noites velando, olhando por quem não me enxerga. A mão no espaço, ao vento, sem serventia. Em vão. Na multidão. Nem uma pessoa. Sim, ao menos uma pessoa. Um mendigo que não quer esmola. Mas quer dar todo o amor que aprendeu e tem. E precisa ser amado. É isso. Sou um mendigo que ninguém vê. Nem mesmo você.

 

À Cega

abril 8th, 2011 § 1 comment § permalink

Se não entende minhas palavras, procure pelas entrelinhas da minha voz. Se não encontra o que eu sinto nelas, molhe-se nas minhas lágrimas. Se forem indecifráveis, mergulhe em minha alma, através do meu olhar, no fundo dos meus olhos.

Se ainda assim não enxerga nada, e só encontra o vazio, outro homem ou puro reflexo… É porque se perdeu. Se enganará que não há razão nenhuma para prosseguir e me descobrir, que não há nada em mim que se possa querer ou amar.

Meu coração, porém, continuará aberto, minha alma e meu corpo continuarão nus, sedentos e sem defesas, esperando para serem tocados.

(Não há nada de indecifrável.)

Fosse a mulher da minha vida, me veria e me reconheceria. E meus olhos… Os compreenderia desde o primeiro instante.

(Eu existo, mesmo que você nunca me veja.)

A “mulher da minha vida”? Que disparate! Existe?

Pois ouse tornar-se. Seja!

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(Adaptação e reedição do texto “Interior” escrito em 06/06/2006.)

 

Cora Linda

março 7th, 2011 § 0 comments § permalink

Como se os olhos nascessem de um manto escuro, revelando suas cores
Onde nem se escondiam mas, distraídos, outros cerravam-lhes em pudores
Raro brilho, simples e enigmático, pintando as paisagens de sonhos e flores
Andando, criança curiosa e encantada, levada menina, a conquistar amores

Leva as palavras e a cada qual inventa uma nova sina: palco, voz, dançarina
Ilumina pelo caminho, onde pressinto e não adivinho, um mar e tanto carinho
Na ousadia, na fome, na surpresa… Na poesia, no nome, na beleza que fascina
Nesse meu rosto farto de dias, na minha face que cora, o olhar que ora imagina
Aonde me levarão suas mãos, anjo-passarinho, nas manhãs em que desatinas?

 

A paixão, segundo eu mesmo

fevereiro 28th, 2011 § 1 comment § permalink

“Obrigada e desejo felicidades também, mas estou namorando, seja feliz. Por favor, não me escreva mais. Tudo de bom.”

“Preciso me apaixonar de novo.” Disse isso para uma amiga e um amigo, ali na mesa, entre os sucos, os lanches e entre outras mesas com pessoas que pareciam tanto querer mostrar que estão felizes, mas sem parecer saber o que é isso de verdade. É isso: preciso me apaixonar de novo. Eu fantasio, fantasio, fantasio. Tenho inventado historinhas na minha cabeça, criado possíveis romances, mirabolantes possibilidades… (Parece coisa de criança, e é mesmo.) Depois de ter achado que isso, me apaixonar, não aconteceria nunca mais, que eu não queria mais, que não era mais possível. E talvez não aconteça mesmo nunca mais, talvez nem seja mais possível, mas tenho descoberto que eu quero. Mais que quero, preciso mesmo. Porque sou movido pela paixão. Só vivo quando apaixonado. Caso contrário, apenas sobrevivo.

Algumas pessoas diriam: “apaixone-se por si mesmo”. É, eu concordo. Importantíssimo é estar apaixonado por si mesmo. Se não for possível, por algum ideal. Se não, por alguma coisa. Qualquer que seja. É importante. Mas eu estou falando de me apaixonar por outra pessoa mesmo. Quero tanto e tanto que alguém me encante de novo. Quero desesperadamente ver no espelho de novo esse brilho nos meus olhos. Fazer aquelas coisas mais loucas, mais deliciosas e sem sentido, mas com todo o sentimento, por alguém. (Até que ponto a gente ama uma pessoa ou ama como se sente quando está amando aquela pessoa? Eu não sei, não tenho a resposta.)

Acho que as pessoas procuram muito um grande amor na vida. Parece que isso é muito importante para elas. (Eu não acho que um grande amor seja importante: para mim é imprescindível.) Então, quando a gente começa a falar das dores, da falta, do vazio… Elas chegam e dizem: “tenha esperança, um dia você ainda vai encontrar”. Acontece que eu já encontrei. Como vou lhes explicar isso? Como explicar cor para quem é cego? Eu já encontrei o amor da minha vida. Sei como é. Vivi. E foi muito mais lindo e muito melhor e muito mais mágico do que eu poderia ter imaginado ou fantasiado alguma vez antes. E foi real. Foi de verdade. Então, um dia, ela decidiu que tudo isso era demais pra ela. Que não merecia. Que não me merecia. Que não me amava do jeito que eu merecia. Ou que não se amava. Ou sei lá. A gente diz tanta coisa quando acha que é, depois descobre que era diferente, mas aí acha que já não tem como dizer ou, pior, acha que não vale mais à pena dizer. O fato é que sabíamos, ambos, como foi. Como era. E como seria. (Eu ainda sei.) E, ainda sim, não permanecemos juntos, não estamos juntos. (Quando um não quer, dois não vivem um romance.)

Ou, então, elas, as pessoas, dizem: “é bom ficar sozinho por um tempo, se reorganizar, por os pensamentos e sentimentos em ordem”. Eu fiz isso, juro. Fiz isso. E nem tinha como ser diferente. Foi o que me restava. A única coisa que poderia/conseguiria fazer. Antes disso, ninguém sabe o quanto foi dolorido. Imagine o grande amor da sua vida morrendo. É… Vocês estão no auge e numa bela hora a pessoa morre. Dói só de imaginar, né? Só que ela continuava (e continua) viva. Se tivesse morrido, acabava me conformando. A gente acaba sempre se conformando com a morte (destino de quem vive). Mas ela continua viva. (Lá fora, em algum lugar. E aqui, dentro de mim.) Reaprendi a estar só e razoavelmente bem. Encontrado outros interesses, coisas para aprender, lugares para ir. Reaprendi, depois de tanta dor, a me encantar com coisas simples. (Porque todas as coisas lindas, mágicas e simples me remetiam a ela.) Flor, borboleta, cão dormindo… Céu, nuvem, rio. Essas coisas. Tenho descoberto amigos, saído, me divertido. Enfim… Tenho tentado recuperar o gosto e o sabor. O tesão. E tenho conseguido. Mas, isso tudo posto, falo com uma serenidade que me espanta: preciso muito me encantar por alguém de novo. Estar apaixonado, me apaixonar. Não sei viver de outra forma.

Eu, que me “apaixonava” tão facilmente… Que saía de um relacionamento e já entrava em outro. Que quando não me apaixonava, inventava que estava e depois de tanto teimar que estava apaixonado acabava ficando mesmo (com ela não foi assim). Aprendi a estar só (ou aceitar que estou só, que talvez todos estejamos). Mas, sai ano e entra ano e não tem dado certo isso de ficar sozinho (tampouco as tentativas de não ficar). Não que a queira novamente, que ache possível estarmos juntos de novo. (Das últimas vezes que nos vimos ou conversamos, ela fez questão de deixar clara essa impossibilidade. Embora ela nunca tenha conseguido explicar por quê e a derradeira tentativa de “estou namorando” também não explicar nada. E eu continuo mentindo pra mim mesmo que não quero, que também não acho possível. Acho que fica mais fácil. Quem sabe um dia eu mesmo também acredite nisso?) E talvez nem fosse bom, nem para um nem para o outro, uma volta. Mesmo que ainda doa muito de vez em quando, há tanta alegria em certas lembranças… A magia, a beleza, o encanto. Talvez seja isso que precisemos guardar. Ou melhor, que eu precise. Só posso falar por mim.

Mas eu quero muito, preciso tanto me apaixonar novamente. Alguém por quem eu me apaixone novamente. E que chegue e me diga, sem precisar dizer nada: “Olha, tudo isso que você viveu foi lindo, importante e marcante… Mas o amor da sua vida mesmo sou eu. Aquilo era um rascunho, por mais arte-final que parecesse. Sou, ao mesmo tempo, a sua paz e seu maior desafio. E sei que você é capaz de viver plenamente este amor. Sei que somos. Porque agora a história é outra. Porque somos outros. Porque eu tenho coragem. Porque eu não vou fugir. Porque eu quero viver a história toda. Porque eu daria minha última gota de sangue por você. Porque sei que faria o mesmo por mim. Porque eu também te quero. E não tenho medo de você. Nem de mim. Porque eu quero criar com você, juntos, tudo que sonharmos. E viveremos e descobriremos coisas ainda tão mais lindas, meu amor. Porque eu te amo e serei sua parceira de agora em diante. Porque eu também sou perdidamente apaixonada por você!”

 

A francesa

fevereiro 26th, 2011 § 0 comments § permalink

A rosa vermelha encontra a mão da moça. A francesa. Em seu vestido estampado. De rosas. Escuro. De longe via os olhos tristes. (Por que sempre sou atraído pelas de olhos tristes?) Ela diz que há muito que um homem não lhe dá flores assim. E abre um lindo sorriso. Desenha no ar o mapa do país, mostra-me de onde veio. Quer saber de onde vim. Para onde vou. E eu nem me lembro. Seu sotaque simplesmente me inebria. Apenas continuo a criar o diálogo à esmo para poder continuar ouvindo. E contemplando. Um rosto de traços tão singelos. E de uma dor, tão profunda, receio. Maturidade forçada e forjada sabe-se lá por quais histórias num corpo tão jovem. Ainda lhe diria que há tempos um sorriso de mulher não me encanta assim. Que criaria para mim uma nova vida e lhe daria. Dia após dia, como uma nova rosa em cada dia. Em cada noite. Sem esperar nada em troca, que não o seu amor. Ainda que não saiba, ainda que isso lhe diria, antes dela vir e se despedir. E eu ficar, à francesa.

 

Um barco

fevereiro 22nd, 2011 § 1 comment § permalink

Estava aqui pensando… Parece haver um senso comum de que a maioria das pessoas está procurando (ou esperando) um grande amor em suas vidas. Pelo menos é isso que tenho ouvido aqui e acolá, de várias formas, de um jeito ou de outro. Parece-me justo. Um grande amor, viver um grande amor, dá um certo sentido maior à existência, à vida… Torna possível colocar em prática o que desconfiamos na teoria. Amar… Amar e ser amado, é claro. Porque “amor” deveria rimar com “dor” e “paixão” com “solidão” apenas nas músicas (ditas) sertanejas. Amor rima com esplendor. Paixão com tesão. Tesão pela outra pessoa, por si mesmo, pela vida. Por estar vivo e viver cada momento. Poder descobrir e encantar-se. Com tudo. Cada nuança, cada detalhe.

Mas, de verdade, eu não vejo as pessoas procurando um grande amor. As vejo fugindo desse grande amor. De formas sutis ou exageradas, mas sempre fugindo.

Como um bom voyeur, eu adoro ver. É claro. Mas não apenas corpos. Adoro ver os olhos. Desvendar as almas. Preciso enxergá-las. Tudo que uma pessoa é, e não é, e ainda não é, mas pode vir a ser. O que será. Descobrir, construir, inventar. Quem é, quem sou, quem somos. Juntos. Porque, de certa forma, como também acreditava Caio Fernando Abreu, penso que amar é conseguir ver e desamar é não conseguir ver. Mas é preciso também que queiram ser vistas. Que não se escondam. É preciso que se mostrem. Plenamente. Que não tenham medo. Que se arrisquem. Pelo menos um pouquinho, até perceberem que não precisam ter medo.

Às vezes desconfio que consigo ver mesmo quando se escondem. Mas isso dá um trabalho danado. Porque elas mesmas não querem descobrir quem são. E têm um medo absurdo de quem demonstra um mínimo sinal de que está vendo mais do que elas querem que seja visto.

De novo, parece haver um senso comum de que a maioria das pessoas está procurando saber quem elas mesmas são. Mas não é isso que vejo. Vejo a maioria das pessoas usando de todos os artifícios imagináveis e inimagináveis para fugir dessa descoberta. Todo e qualquer método de distração é válido pra isso. Têm medo do que podem encontrar? Não sei… Elas talvez pudessem responder. Se estivessem interessadas verdadeiramente na resposta. E, principalmente, na pergunta.

Vamos lá… As pessoas colocam fotos no Facebook, citam textos no Twitter, preenchem lá os formulários falando quais são seus gostos, preferências. Filmes, músicas, livros… Então estão se mostrando, né? Não… Estão criando numa vitrine uma versão de si de como gostariam que os outros pensassem que elas são. Em boa parte das vezes. Como diz Humberto Gessinger: “todo mundo era poeta, todo mundo era atleta, todo mundo era tudo”. Todo mundo é tudo. O mais legal, o mais popular, o mais culto, o mais bonito, o mais descolado, o mais… Ou, pelo outro lado, o mais injustiçado, o mais carente, o mais triste, o mais incompreendido. E ninguém é mais quem mesmo é. Alguém que está no mesmo barco que todos os outros, sem respostas, frágil, querendo descobrir o que é isso de ser feliz. Por experiência, e não por ouvir falar. Querendo tão somente amar e ser amado. De verdade. Sem disfarces, sem precisar ser quem não é. Saber que ser o que é, é suficiente. Não precisa de mais nada. Ter alguém com quem deitar na grama e olhar o céu. Rir, errar, fazer palhaçadas, chorar… Viajar. Caminhar. Criar. Brincar. Aprender. Ser humano. Ser tudo que pode ser, enfim.

Tudo bem… Nem todo mundo está criando uma versão panfletária (e inútil, já que não pode ser tocada) de si mesmo. Alguns realmente se mostram. Como são. Ou o que é possível mostrar em tão pouco tempo e em tão pouco espaço. (Seja na Internet ou em qualquer outro lugar, “virtual” ou físico.) Mas recuam quando começam a serem mesmo vistos. É que há um problema aí. Se se mostrarem realmente pode ser que alguém se encante. Que se apaixone. Que queira ir mais adiante. Que queira ver tudo. (Mesmo que ver tudo seja eternamente impossível. Daí a graça. Tudo muda, tudo se expande.) Descobrir. Viver um grande amor. Só que… Quem estava até então se mostrando não está procurando de verdade um grande amor. Apenas quer saber se há uma possibilidade disso acontecer. Pronto, já sabe. Pode se esconder de novo. Porque, de verdade, está mesmo fugindo de um grande amor. E não procurando (ou esperando) por ele.

Vai que ela mesma se apaixone também? Vai que não dê certo? Vai que sofra? E eu pergunto: Vai que dê certo? Vai que sejam mesmo o amor da vida um do outro? Como saber se não tentarem? Se não permitirem? Se não se permitirem?

Estou com dificuldade em dizer o que realmente queria dizer. Mas fico imaginando… Quantos amores deixam de acontecer porque as pessoas simplesmente não querem ser vistas e também não querem ver. Porque preferem viver à espera do que viver realmente. Se arriscar. Dar certo, errado… Não importa. É preciso haver essa aproximação. Deixar que ela aconteça.

Quem sabe um primeiro passo? Que precisa de outros. Mas é um começo. E tudo sempre começa com um primeiro passo. Qualquer jornada. Uma pequena ousadia. Uma iniciativa. Simples que seja. Sim, eu faço. Mas é preciso também resposta, reciprocidade, espaço.

E talvez isso tudo seja mesmo pra dizer que eu vejo a moça. A enxergo. Que estou encantado… Que sei que posso amá-la e ser amado por ela. Sei que podemos viver qualquer coisa que desejarmos viver. Que parecemos ter tantos valores, gostos e sonhos semelhantes. Que seria incrível descobrir também nossas diferenças. E então aprender um com outro. E crescermos juntos. Enriquecer a vida um do outro. Encher de alegria e desafios a vida um do outro. Dizer que estou mesmo encantado pelo que sente, pelo que pensa, pelo que diz, pelo que sonha… Por seu corpo, por sua tatuagem, por seu rosto, por seu sorriso, por seu olhar. Por tudo que podemos viver. Mesmo que seja tudo diferente do que imagino. Eu quero descobrir. Se ela ao menos me deixasse entrar… Ou, pelo menos, quisesse também me enxergar. Sei que ela poderia se encantar comigo também. Mas eu não posso entrar. Ela não deixa. Porque não está procurando um grande amor. Está fugindo. Talvez o que mais queira na vida é alguém que olhe em seus olhos e, nesse momento, saiba que lá está quem a vê verdadeiramente. E ama o que vê. Quem vê. Mas ela foge… Porque acha melhor bater a porta na cara da felicidade. Depois de tanto tempo esperando. Por conta de um medo antecipado de perdê-la. De não a merecer. De não ser boa o suficiente para que a felicidade fique. Então dá uma olhadela pelo olho-mágico e pensa: “Tá vendo? Eu podia ser feliz se quisesse.” E então volta pra dentro. E se recolhe.

Enfim… Um amor que poderia acontecer. Que pode acontecer. Mas é preciso tocar a vida da outra pessoa e deixar-se tocar por ela.

Nunca tive medo disso. Pelo contrário, me arrebento inteiro achando que é de verdade que alguém quer ver e ser vista. Que quer mesmo saber quem é, quem sou e descobrir quem somos. Quem seremos. E que quer fazer isso juntos. Arrebento-me pra valer, mas continuo não tendo medo. Já me disseram que sou “único”. Não pode ser verdade. Não quero ser único. Deve haver pelo menos mais uma pessoa que não tenha medo. Quer dizer que não tenho par? Que sou eu o único alienígena por aqui? Duvido.

Tenho visto as pessoas ficando cada vez mais sós e reclamonas. Da vida. Do dia-a-dia. De tudo. Por não serem amadas. Por não poderem exercer plenamente sua capacidade de amar. De viver. Sem se dar conta que isso pode ser mudado num instante. Se ao menos quisessem. Ou tivessem um tiquinho de coragem. E então se lançassem. Infinitamente.

Se ao menos conseguissem se apaixonar por si mesmas…

Sei lá o que quero mesmo dizer. Estou divagando. É que me aflige tanto desperdício. Em tantos lugares. Tantas pessoas. Tanta coisa linda pra acontecer que não acontece. E tem aquele negócio, né?, “todo mundo é uma ilha”… O que quero mesmo dizer é que eu sou um barco.

 

As Sete Cidades

janeiro 22nd, 2011 § 1 comment § permalink

“Por quanto tempo”, eu perguntei, “manter-me-ão nesta prisão?”

— Vim de terras longínquas e mágicas. Onde entre as mulheres há doce e delicada beleza. Entre os homens honra e dignidade. Onde a verdade e a alegria brilham nos olhos puros de cada pessoa. Onde conversamos com árvores e elas nos abraçam e nos dão de seus frutos. Onde os animais nos são queridos irmãos. Onde nossas filhas são graciosas e nossos filhos são fortes. Onde crescem livres pois sabem que o medo é uma mentira. Que há abundância em todas as coisas e nada lhes será negado. E que tudo lhes pertence, e por isso não precisam de posses tampouco disputas. Pois tudo é de todos. Onde o alimento alimenta mais que ao corpo; à alma. Onde o trabalho é satisfação e prazer. Onde a arte é vida. Onde dançamos, em volta de fogueiras, as deleitosas músicas que nos foram presenteadas por nossos ancestrais. Onde os ventos cantam nossos nomes e a água nos guia para desafiadores aprendizados. Onde nossas mães e nossos pais nos sabem com orgulho e nos abençoam com sua sabedoria. E nós os retribuímos com nosso profundo respeito e admiração. Onde a terra nos enche de coragem e as estrelas de inspiração. Onde cada menor criação sabe quem somos. E nós as sabemos. Onde o único soberano é o Amor. E a única lei é a Liberdade.

Pois eu volto a perguntar: “Até quando manter-me-ão trancafiado nessa terra vazia e árida de magia e nobreza? De amor e liberdade?”

Então uma voz respondeu-me: “Nós existimos porque tu em teus desesperos nos criaste. Porque em tua falta de fé nos fez assim. Nunca estiveste preso. Sempre foste, és e serás livre. Seres livre, porém, é uma decisão tua, não nossa. Sim… É uma escolha. Se escolheres a prisão em pouco tempo não te lembrarás mais de onde vieste e até mesmo quem tu és. Que escolhas então a liberdade. Para que também sejamos livres e a magia possa retornar a ti, aos teus olhos e ao teu coração. E tu a ela. É esta a tua hora, meu Senhor. É tua esta decisão. E não mais poderás adiá-la. Escolhe. Confiamos em ti e em teu destemor. Acreditamos a tua essência, a tua coragem e a tua ousadia. Escolhe!”

 

Ainda que seja de noite…

outubro 30th, 2010 § 0 comments § permalink

O vento dança com as rosas, vermelhas, belamente, nos jardins que agora mais perto vejo. Brinca também com meu rosto. Traz-me os carinhos de mãos doces que, mesmo não as vendo, as sinto. Perto. Muito perto. Meus mestres que já foram, mas que de quando em quando retornam. Para me visitar. E os que me presentearam com sua vinda e aqui ainda estão. O meu caminho é simples. Despojar-me das vestes imundas do egoísmo, do orgulho e da vaidade, para que eu também retorne. Limpo. Nu. Livre. Assim como nasci.

Mas, antes, entre meus passos, reencontrar, reconhecer cada membro da minha família. Que se forma ao longo da jornada. Adotar novos. Ter a honra de ser também adotado por eles. Aprender a amar. Os que me ensinam, dia após dia, o que é o amor. Tocar a vida de cada um. E ser tocado. Para que, além de aprender, eu possa ter também algo a ensinar. O respeito pela liberdade. Pela própria liberdade. Exercê-la. Para que possa aprender também a entender, a respeitar e a querer a liberdade de cada um. Pelas igualdades que nos unem. Pelas diferenças que são belas e ampliam nossos horizontes. A diversidade. Lindos jardins a se formar de tantas e tantas flores. E tantas formas. E tantas cores. A beleza que há em tudo. Que me sobrecarrega os sentidos. E me criam lágrimas e sorrisos. Que me enche de vida.

Aprendi a amar a escuridão, completa, porque ela me ensina o valor do dia. Aprendi a amar o dia, e o sol grandioso, imponente e humilde, que nasce e me ensina o valor da escuridão. E sabe a hora apropriada de se recolher. À sua maneira, de artista, criando belos quadros no céu. Nunca iguais. Sempre divinos. E então se vai, para que possamos admirar também a beleza da lua e de todas as estrelas. Vai iluminar a outra face. E então retorna, alegre e vivo, para nossa alegria. E para a nossa vida.

Não vejo mais pelo que me debater. Nem a razão de debates. Já não me incomodam as respostas. As que penso ter e as que ainda não tenho. Amo as perguntas. Não me importa mais qual o destino. Aprendi a amar o caminho. Intenso. Imenso. Diverso. Belo. Eterno e ininito.

A mim o ampliar de meu olhar. O perceber a abundância de amor em tudo. O expandir do meu coração. A gratidão pelo que já foi. O encanto pelo que é. A vontade pelo que há de ser.

 

Singeleza

outubro 19th, 2010 § 0 comments § permalink

Não sei como dizer. Não haveria como dizer com palavras. Mas, se elas dissessem o que queria dizer, diriam algo de brisa a beira mar, de pés descalços na areia, de liberdade. Diriam girassóis. Diriam rosas e beija-flores. Diriam de um olhar limpo e amoroso. De sorrisos simples. De orvalho e cheiro de manhãs. De carinhos na alma. De alegrias-crianças brincando leves pelos jardins. De vôos coloridos de borboletas. De noites iluminadas. Pela lua, por estrelas, por vaga-lumes. Pela abundância de boa vontade e admiração. De gratidão. De espontânea ousadia. De confiança em sentir, sem medo. Da generosidade de doar-se a quem vibra e sabe naturalmente o valor do presente que recebe. De milagre. De magia. De vida. Da saudade que sinto de você agora. De como você é bonita e bonita é essa saudade.