agosto 21st, 2010 § § permalink

Fotografia: “Slow dancing” por apoetsdream
Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.
Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.
Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.
Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
Desde o teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.
(Pablo Neruda)
julho 13th, 2010 § § permalink

Fotografias: “Suspicion” por hellolikegoodbye
Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida te enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.
(Caio Fernando Abreu)
junho 21st, 2010 § § permalink

Fotografia: “Time against Sunset” por hellolikegoodbye
em qualquer parte do mundo, pertenço àquele lugar. sou nativo. ao mesmo tempo e sempre, porém, sinto-me estrangeiro. em todos os lugares. o meu lar é o coração de uma mulher, que ainda não encontrei. e talvez nunca encontre.
junho 15th, 2010 § § permalink

Fotografia: “your melody” por Jahblessme
Para abrir o sorriso da Gi, menina diáfana, usaria metáforas, ousaria ações? Sem senões, quem sabe um olhar? Um caminhar beira-mar. E se ela sorrir para mim? Assim, sem falar nem fugir? Um pôr-do-sol em Paraty?
junho 12th, 2010 § § permalink

Fotografia: “satellite skin” por Jahblessme
Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu, para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora.
(Trecho de “Quando setembro vier”, Caio Fernando Abreu)
maio 18th, 2010 § § permalink

Fotografias: “Sadness- Diptych” por Demoneangelo
Naquele dia eu queria que você não aceitasse. Não só para si, para dentro, muda. Implodindo. Como quem, na verdade, não quer mas já aceitou. Não. Queria que se lançasse. Numa explosão. Cruzasse a linha do esperado. Do certo. Do correto. Me provasse errado. Queria berros. Choros. Tapas. Ofensas. Violência. Tiros. Muita gritaria. Sangue e loucura. Nem perda nem procura. O encontro. O espanto. Com o real. De nós. De tudo, o bom e o mau. Naquele dia eu queria ver: quem desconfiei aí dentro saltar para fora. Me impedindo. Abaixando o nariz e me pedindo, implorando. Xingando. Com raiva. Naquele dia eu queria que rasgasse minhas roupas. Perdesse o senso. A hora. O ridículo. A direção. Ficasse nua. Me ordenasse: “vem que vou ser sua, agora!” Mesmo sabendo que eu não iria, o inoportuno da situação. Naquele dia eu queria você sem verniz, crua. O gosto de lágrima na língua. De urgência no ato e no corpo. Naquele dia eu queria tesão, não teoria. Naquele dia queria não quem você acha que deve ser, mas quem você seria, se fosse. E não é porque não quer. Naquele dia eu queria desespero. A amargura áspera derramada sobre o que já foi doce e liso. Queria você inconformada, depravada, indignada. Naquele dia queria que tentasse tudo que fosse preciso para que eu ficasse. Queria mais que o silêncio. E o nada. O impasse. E o desenlace. Desarmada, nem pobre ou rejeitada, mais que a que dizia me amar, mais que a que me prendia, que me perdia: naquele dia eu queria de você, em você, a mulher que me amasse. Que me soltasse. Não a que achava me possuir, mas a que me ganhasse.
Naquele dia eu queria que algo em você não me deixasse partir.
abril 6th, 2010 § § permalink

Fotografia: “Poulpe” por boitatou
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos… Já vi. Os meus olhos doidos, doidos, doidos… São doidos por ti.
(Trecho de “Telhados de Paris”, Nei Lisboa)
março 29th, 2010 § § permalink

Fotografia: “Refletions simples” por BigboyDenis
Não fui criado para fazer sentido. Fui feito de sentimento, para ser sentido. Não nasci criado, nem senhor. Nasci humano: honra de homem, coração de mulher, olhos de criança. Misto de flor com beija-flor. Esperança de rio, sonho de mar. Um furor de querer ver sempre mais do que a vista alcança. Nem sempre bem-educado, nem sempre mal-criado. Nunca curado, de mal de amor. De bem com a vida, nem sempre bem-amado. Em certas manhãs, de bom humor. Encantado, isso sempre. Por carinhos e manhas. Enredado de maldades cândidas e de ingênuas bondades. Fiz de cada mulher minha morada e cidade. Nenhum outro interesse senão amar. Nada quis do que não dei. Acreditar é não ver, ou ver: verdadeiramente. Além. Por escolha ou acidente. Tímido ou à vontade, às vezes cantava rouco, noutras errava louco, que seja… Fui sempre mais do que consegui ser. Fui tudo. E foi tão pouco.
março 19th, 2010 § § permalink

Fotografia: “Ola 29″ por soruse
março 8th, 2010 § § permalink

Fotografia: “Beach Bum” por Haushinkah
Perdi o medo de lhe perder quando finalmente perdi. A noção, perdida, de que na vida perder seja possível. A ninguém se prende. A ninguém se perde. Nós é que nos perdemos. Rios. Correntes. Antes. Para nos reencontrar. No mar. Depois. Amar.