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julho 6th, 2011 § 0 comments § permalink

Ela vinha com uma urgência impossível. Rapidamente retirava o vestido, numa destreza difícil de reproduzir. E, então, vestida de colar, brincos, bracelete e anéis… Completamente despida de pudores, abaixava a minha calça. Sem delicadezas. Se encaixava em meu corpo. Mirava meus olhos fixamente. Enquanto iniciava uma dança cuja coreografia só ela sabia. De quando em quando me sorria, cínica, inocente e atrevida. Indecente. E me olhava, sempre. Nos olhos. Continuava. E continuava, avidamente. Até fazer meu corpo dar-lhe o prazer que tanto buscava. Era insana. Apertava-me fortemente. Podia sentir cada uma de suas contrações. Descabelada, demente, louca. Em espasmos. Gritava. Ria. Chorava. (Uma mulher chorando de prazer. Como era isso possível? De tudo que já vi em minha vida, ela, gozando, é o que vi de mais lindo.) Então caía sobre mim. Um beijo doce em meus lábios. Seus cabelos em meus ombros. Seu rosto em meu pescoço. Ofegante, permanecia. Suada, entregue… Por um tempo. Até inventar uma outra dança. Depois outra. Múltiplas. Quantas quisesse. Para só depois decidir que seria, quando seria, a minha vez.

 

Seco

junho 27th, 2010 § 1 comment § permalink

Ele chegava de noite, entre resmungos e gritos sem nexo e batidas violentas na porta. Cada vez mais barulhentas, e eu então a abria. Não conseguia distinguir aquele homem. Entre o cheiro de conhaques, cachaças, mulheres, cigarros… Não encontrava seu cheiro. Achava que cada violência vinha de uma provocação. No que eu o provocava, meu Deus? Qual era a minha culpa, que merecia tão grave punição? Tão frágil, era eu. Uma rosa sendo despetalada em cada vez que os punhos se cerravam. Caída pelo chão, ele continuava. O sangue escorrendo da boca, dos olhos. E de sei lá mais onde. Agüentava até ele se cansar. Então o levava até o quarto, o deitava na cama, retirava seus sapatos e o cobria. No banheiro, no espelho, uma imagem refletia um rosto deformado que já não era o meu. E lá eu caía, também exausta. E ficava, não sei por quanto tempo.

No outro dia ele saia cedo. Tinha disso, não importava que hora dormisse ou como, sempre acordava muito cedo. Antes de mim. E voltava. Trazia pão, leite. Fazia o café. Punha a mesa. E ia me acordar. Pegava uma bacia, um pano. E limpava minhas feridas. De uma forma tão lenta, tão delicada. Com tanto cuidado. Seus olhos, lacrimosos, tinham tanto carinho. Tanta angústia. Tanta dor. Às vezes me perguntava: “Dindinha… Por que você não me deixa? Por que ainda continua comigo?” Não tinha muitas palavras para responder àquele, agora, menino. Arrependido, lindo e terno. De mãos tão macias e amorosas. Então punha minhas mãos atrás de seus cabelos e puxava sua cabeça para perto. E, após um beijo seco, quase nem beijo, engolia o vazio, o seco. E, a ele, conseguia apenas o esboço de um sussurro: “porque eu te amo”.

 

A moça magra

abril 14th, 2008 § 0 comments § permalink

A moça magra, de cabelos lisos, loiros, naturais, um pouco compridos… Saia e blusa, um tanto comportados. Parecia tão delicada. Abana com a cabeça e sorri. Então me levanto para que possa sentar-se junto à janela. A viagem demora um tanto. Passo a ouvir música nos fones de ouvido. Ela, com o tempo, parece relaxar. Ao contrário de mim, talvez consiga descansar dentro de um ônibus.

De tempos em tempos, eu reparo da delicadeza do rosto. Os fios bem fininhos do cabelo. E ela adormece. Um sono tão tranqüilo, uma candura de sono. Minha imaginação começa a querer inventar uma história para aquela moça. Quem seriam seus pais, seus irmãos. Seu namorado. Onde trabalha, o que faz… Não sei responder. Naquele momento ela se completa em si e em seu sono. Não preciso pensar em mais nada. Discretamente contemplo.

Algumas horas depois, ela acorda… Meio sem graça, se ajeita do despojamento. Faz que olha para meu lado. Olha, mas sem olhar. Abre sua bolsa que estava no colo, retira um escova. Pende a cabeça e passa a escovar os cabelos, vagarosamente e displicentemente, como se estivesse em frente ao espelho de sua penteadeira.  Começa lá em cima… Vai até embaixo. Uma paciência. E seus cabelos lisos parecem ficar ainda mais lisos. Continua, escovada por escovada, até que em uma hora se dá por satisfeita.

Guarda a escova. E apanha na mesma bolsa algo para prender os cabelos. E prende. Move a cabeça de um lado pro outro… O rabo-de-cavalo recém-formado acompanha. Retira agora o estojo. Diante do espelho passa algo no rosto, para corrigir o que pra mim já estava bom. Mas ficou bom. Um excesso de maquiagem macularia seu rosto. O batom não chega a marcar a boca. Está bonita assim. E a boca começa a abrir um sorriso, disfarçado, mas sorriso. Os quilômetros ficam menores. Ajeita as costas. A postura já é outra. O sol vai nascendo em seu semblante. Os olhos agora brilham.

E o ônibus sai da rodovia. Entra na cidade. A moça tão tranqüila agora é impaciente. Parece não ver a hora de levantar-se do assento. E é o que faz, bruscamente, ainda educada, mas com ansiedade. Eu me levanto para dar-lhe passagem. Seja o que for, ela tem pressa. O ônibus pára. E ela já está quase na porta para sair. Eu continuo, a cidade em que vou é outra. E tomo o seu assento para acompanhá-la mais um pouco. Lá embaixo, o sorriso agora é pleno. Os braços abertos. Do rapaz à sua espera também. A saudade e o amor são nítidos. Que beijo mais bonito.

Parecem conversar algo e saem de mãos dadas. Felizes, agora inteiros. Não sei se ele imaginará toda a preparação feita para aquele momento. Já a viu radiante. Não viu o sol nascer em seus olhos, em plena noite. Talvez saiba. Quem ama sempre sabe… E lá vão os dois em seu caminho. E eu continuo meu… Ali no ônibus para outros olhos posso também parecer sozinho. Pareço. Jamais sou. Em outra cidade é o meu amor, minha flor, que se prepara, para mim. Cabelos, sobrancelhas, roupas, unhas, olhar… O abraço. Deliciosa boca guardando o beijo. Sorrindo inteira. E eu, vivenciando as cores, a beleza e o amor em tudo, em cada detalhe, flores colhidas no caminho, para presenteá-la, dar-me ainda mais, inteiro, a ela. Em breve. Muito breve. O sol nascendo. Longamente.

 

O caminho das águas

novembro 8th, 2007 § 0 comments § permalink

Hoje eu queria estar com 94 anos por alguns momentos. Queria sentar-me numa praça repleta de árvores, jardins, flores… Bancos de madeira. Brisa, sol e sombras. Muito gostosas. Muito agradáveis. Várias pessoas. Sentar-me num desses bancos, tranquilamente. Não sozinho. Queria que sentado ao meu lado estivesse esse rapaz que vai fazer 34 anos. Queria dizer algumas coisas a ele. E ele, que gosta tanto de falar, de divagar, de defender com tanta veemência coisas que nem começou a entender direito ainda… Gostaria que ele pudesse ficar quieto um pouco e simplesmente me ouvisse.

Primeiro eu gostaria de dizer que tudo sempre esteve, está e estará bem. Não importa a situação, até mesmo no desespero e na euforia. Tudo está sempre certo, mesmo quando tudo parece errado. Mesmo quando tudo parece perfeito. Pra ele ficar tranqüilo quanto a isto. A dinâmica da vida parece complexa, mas é realmente muito simples. O que ele desconfia por intuição hoje, eu o sei por experiência. Queria dizer-lhe sobre as tantas surpresas que terá, que a vida muitas vezes será diferente do que ele imagina, pra pior e pra melhor. Mas se eu lhe contar, já não será surpresa. E que em outras vezes a vida poderá ser exatamente como pressentiu que seria. Pra ele acreditar mais no poder que tem sobre a própria vida.

Queria dizer-lhe também para não ficar ansioso, não se preocupar. Mas também para que não se acomode. Que não é preciso ver toda a escada para subi-la. A escada não tem fim. Que aproveite ao máximo cada degrau. Que busque sempre o novo, mas que sinta a importância do que já existiu e existe. Que não se dê por satisfeito nunca. Mas que aprenda a satisfazer-se com simplicidade. Que, não importa o quanto ele ache que tenha aprendido, mantenha longe a arrogância, que anula todo aprendizado. E que o aprendizado e o crescimento são também infinitos. Para jamais perder a humildade. Sem fazer-se vítima ou de vítima. Que mantenha viva e acesa a capacidade de se encantar, de se emocionar e emocionar. Que perca a ingenuidade, mas jamais a inocência. E a capacidade de acreditar, e acreditar, e acreditar novamente.

Que há coisas que ele não vai mesmo entender, mesmo com a minha idade. Pra ele não se incomodar com isso. Não é preciso entender as coisas. Basta amá-las e vivê-las. Que por mais que se debruce sobre o mistério de uma alma, querer sabê-la plenamente é impossível. Porque ela própria está no mesmo processo pra si. E uma pessoa vive em constante evolução, passando por mudanças tantas. Mas para ele continuar nessa empreitada sem fim, a de conhecer, aprender e querer desvendar. Amar, admirar e respeitar, em todas as afinidades e diferenças. Começando por ele mesmo.

Que é natural sentir-se solitário algumas vezes. Para algumas pessoas isso se dá de forma mesquinha. Porque têm tudo a sua disposição, assim como todos. Mas agem como cegas. E se isolam, culpando aos outros pela própria solidão. Outras porque já nasceram capazes de um afeto enorme. Que tanto dão como necessitam. Que dando, a outra pessoa nem sempre entenderá ou perceberá o que é, o valor que há. Mesmo assim, que não pare de dar, jamais. Porque algumas sempre perceberam, percebem e perceberão. Simplesmente sentem, mesmo que não digam. Nem tudo há como ser dito. A ação sempre é a melhor voz. Quanto a ele, é preciso saber receber outras formas do mesmo afeto. E reconhecer nelas e em cada detalhe o mesmo valor. São idiomas diferentes para se dizer a mesma coisa: “eu te amo”. Que ele aprenda a ser poliglota e não ponha a responsabilidade de suas próprias carências sobre outros ombros. Porque ele jamais esteve, está ou estará sozinho.

Que esse menino assustado, curioso, ousado, encantando e maravilhado com tudo continua assustado, curioso, ousado, encantado e maravilhado, ainda mais agora, tantos anos depois, já um velho senhor. E que isso é lindo. Que tenho orgulho do homem que ele tem se tornado. Quero dizer-lhe para viver intensamente. Sem medo. E levemente. Que jamais perdeu nada, nem ninguém. Todos estamos aqui. Para ele se dedicar aos que ama. Que os ame, verdadeiramente e mais. Sempre. São e serão sempre a verdadeira riqueza que nem a morte apagará.

Por fim, eu gostaria de dizer que não espere. Que possa começar a se amar hoje e agora tanto quanto eu o amo.

 

Cookies

abril 10th, 2007 § 0 comments § permalink

A conexão ia ainda demorar, resolveu então passar pelo free shop, passear um pouco por lá. Foi se entreter com os livros na vitrine e viu aquele que a amiga tinha tanto recomendado. Achou que seria interessante ler alguma coisa enquanto esperava. E, já que ia esperar mesmo, foi logo ali na outra loja comprar os cookies que tanto adorava. Os mais gostosos, com aqueles pingos de chocolate que são deliciosos… Não por coincidência os mais caros também. Foi a sala de espera, deu uma olhadela no relógio, faltava muito. Sentou-se confortavelmente, abriu o livro e começou vagarosamente a ler a introdução. Muito interessante… Deixou-a um pouco porque a boca encheu d’água só de pensar naqueles cookies. Olhou pro lado, e… O pacote de cookies já aberto! Não entendeu nada. “Como assim?”, pensou ela. “Eu não abri esse pacote!” Levantou a cabeça e viu então um senhor ao lado, todo tranqüilo, pernas cruzadas, nelas apoiado o jornal que lia. Com uma mão folheava. Na outra… Um cookie. Que comia graciosamente, como se fosse a coisa mais rara e gostosa do mundo pra se comer.

O sangue subiu na hora. A veia no pescoço começou a pulsar, junto com a cabeça que latejava de nervoso. “Como se atraveu?”, pensou enraivecida mesmo. Pensou em falar um monte de coisas, mas o velhinho parecia ignorar todo aquele seu nervosismo. Ela não se conformava. “Como é que as pessoas podem ser tão… Tão… Tão cara-de-pau?” Pensou ainda em chamar o segurança, falar algumas verdades, alguns palavrões… Mas parou um pouco e disse a si mesma: “Tá bem, eu não vou deixar de comer meus cookies por causa de um folgado… Se bem que… Onde será que esse velho asqueroso colocou a mão antes? Tá… Vou comer assim mesmo e quero saber até onde vai a audácia!” Foi lá, colocou a mão no pacote e apanhou um cookie que começou a comer sem nem prestar atenção direito no gosto. Comia com raiva, arranhando a garganta. Tentou continuar lendo o livro, mas assim que lia uma frase, a raiva a apagava. Tinha de ler de novo. Olhava do lado… O velhinho terminava um cookie e sem a menor cerimônia pegava outro e o saboreava com vontade. Pois ela continuou. Pegou outro… O velhinho então olhou pra ela e sorriu graciosamente. O que a irritou ainda mais. E assim foi. Cada cookie comido por ele, ela comia outro. A indignação aumentando. Aumentando. Quando não comia, os dentes estavam cerrados. Estava transtornada. Aqueles minutos de espera que prometiam ser de sossego, lendo um bom livro, saboreando os deliciosos cookies, já eram. Eram intermináveis, inversamente longos à sua respiração curta e ofegante.

O último cookie: “Pois bem! Quero ver o que esse velho vai fazer agora? Vai comer o último? Ah, vai sim… O sem-vergonha vai comer meu último cookie. Não sei como suportei isso até agora. Ele provavelmente nem sabe a marca nem o preço disso. Puta merda!” O velhinho, que muito calmamente lia as notícias, os artigos… Virou-se e viu que só havia mais um cookie. Olhou pra ela e sorriu de novo. Apanhou o último, mas em vez de levá-lo até a boca, o partiu exatamente na metade. Ficou com uma parte e ofereceu a outra a ela. Que ela apanhou abruptamente. Sorte que olhar não mata… Pois a indignação dela foi ao limite desta vez. “E o cachorro ainda tem coragem de me oferecer o meu próprio cookie? Metade?” Enfiou a metade na boca de uma vez e se levantou com passos fortes e rápidos, o horário do vôo já tinha chegado. Ainda inconformada dirigiu-se ao seu assento, tentou respirar pra ver se pelo menos a viagem ia ser mais sossegada, abriu a bolsa para pegar o mp3 player pra relaxar um pouco. Ouvir um pouco de música ia ser bom. Ao abrir a bolsa, olhou lá dentro e então pode ver claramente… Um pacote de cookies inteirinho. Fechado. Intocado. Da melhor marca, com os mais deliciosos pingos de chocolate… O mais caro.

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Não sei quem é o autor da história originalmente, mas adorei quando a ouvi e aqui resolvi recriá-la do meu jeito.

 

Traços e caminhos

março 27th, 2007 § 0 comments § permalink

Um dia cheguei em casa e lá estava ela. Vermelha. Desproporcional a mim. Acho que cresci mais naqueles dias, mais rápido. Pra poder alcançá-la. Não tinha rodas adicionais. E eu só tinha duas opções: aprender ou não aprender. Quem me ensinaria? Tentei ser autodidata, mas o tombo é um professor severo. Não perdoa.

Talvez imperdoável seja eu não lembrar o nome nem o rosto do vizinho que empurrava, segurava, brincava, ensinava, tinha paciência… Quando finalmente consegui vencer aqueles poucos metros… Metros enormes de instantes infinitos, até eu me dar conta do que fiz. Olhei para trás procurando o sorriso e a vibração no seu rosto. Procurava na verdade seu gosto pelo feito. Mas não era o seu rosto, talvez por isso eu tenha me esquecido. Caí na sua ausência.

Tempos depois passei a percorrer a cidade a esmo em cima dela. Procurando sei lá o quê. Seu rosto? Também não lembrava muito bem dele. Como era? Talvez era meu rosto que fazia-me lembrar desse seu outro presente frio: parte dos meus traços. Jamais dos meus caminhos.

Mas lembro-me dela, uma Monareta vermelha. Ainda assim vagamente. Lembro-me mais do aprendizado. Mas o que mais me lembro é que naquele dia eu devia estar alegre. Mas estava mais é surpreso. Não pelo presente. Mas por quem o deu. Não sei exatamente o que quis me mostrar com isso. Nem estava lá quando eu a vi. Pra saber minha reação. Não quis ver minha reação? Não quis me ensinar? Nem saber se aprendi ou não? Não…

E você nunca quis saber… Mas eu não queria uma bicicleta. Queria o pai atrás da bicicleta. Empurrando, segurando, brincando, ensinando… Pacienciosamente. Vibrando em cada feito. Acarinhando em cada tombo. Bicicleta? Até “Papai Noel” poderia dar… O que seria menos surreal e mais crível. Um pai? Só você poderia. Não de uma hora pra outra, não de surpresa, não pronto. Mas construí-lo com as próprias mãos, dia após dia, com o próprio coração… Quem sabe? Jamais saberemos.

Mas quero sim que saiba… Naqueles dias eu aprendi. Muito. Não só a andar de bicicleta. Mas que sozinho mesmo eu não aprenderia muitas coisas. Que precisaria de alguém atrás de tantas outras bicicletas pra me ajudar. E jamais seria meu pai. Tantos outros vizinhos, alheios… Sem nomes e sem rostos. Sem traços ou obrigações. Mas sempre mais presentes e afetuosos… Muito menos estranhos a mim que você.

Não, na verdade nem quero ou preciso que saiba. Mesmo. Porque hoje eu sei. E quem me ama me sabe. Que onde o menino cai, o homem sempre se levanta.

 

Carne e bananas

novembro 14th, 2006 § 0 comments § permalink

No domingo ia-se ao mercado municipal. Comprar carne e bananas. Uma dúzia. Único dia de carne e bananas, dia especial. Cinco filhos em casa. Uma para antes do almoço. Outra para depois. Sobravam duas para os pais, uma para cada um. Sobrariam. Ele cuidadosamente escondia a sua dentro do bolso do paletó surrado, dependurado num prego na parede. Dependia do quanto estava madura. Mas até quarta-feira ele sorrateiramente dava um destino à fruta. É que seu filho mais novo sempre teve direito a três bananas.

Às vezes é preciso conhecer o poder das nuances. Sentir a força das sutilezas. É preciso ouvir com ouvidos apurados, atentos. O “eu te amo” nem sempre é explícito. Mas pode ser dito de muitas maneiras.

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Dedicado a Antônio Ferreira e a seu filho mais novo, Osmar Ferreira.

 

O Palhaço

outubro 31st, 2006 § 0 comments § permalink

E o palhaço, o que é? Ladrão de mulher! Não… Nunca roubei uma mulher. Nunca roubei ninguém. Nunca roubei nada. Mas não sou menos palhaço. Eu acreditava em dar. Em doar-se. Imaginava que a liberdade era algo valioso, condição primeira. Que a espontaneidade é que valia. Que ser quem eu sou bastava.

Acreditei que por falar a verdade sempre, jamais duvidariam de mim. Que acreditariam na sinceridade do meu sorriso. Na graça que via na vida. No encanto menino do meu olhar. Na surpresa alegre da descoberta. Tinha a ilusão que poderia despertar dentro de uma pessoa o amor por mim, sem eu ter de me fazer passar por outro.

Imaginava eu, vejam só, que o amor era capaz de vencer tudo. Toda e qualquer dificuldade. Porque dificuldades existem. Assim como as diferenças. Como é bom sermos diferentes. Mas entendia que as diferenças fariam de duas pessoas mais completas, por conhecerem, aceitarem e aprenderem o que no outro é diferente. Pensava também que as semelhanças uniam.

Chegava até a acreditar que minha ingenuidade era um qualidade, e não defeito. Que gentileza gerava gentileza. Que as mãos estendidas receberiam sempre outra, com a mesma disposição. Que se segurava pelas mãos uma pessoa, quando fosse minha vez no trapézio, ela não me deixaria cair. Sempre vivi sem redes de proteção e sem maquiagem.

Pensava que meu bom humor era contagioso. Imaginava que eu sabia fazer rir. Que meu riso também seria importante e querido. Pois é perigoso conviver com quem não sabe dar risada de si mesmo. Descubro que é a tristeza que contagia. Que o rancor e a mágoa alheia faz triste e destrói até o mais competente palhaço. Palhaços não são competentes.

Eu sonhava que um romance era possível. Que duas pessoas poderiam se amar mutuamente, até que a morte, em uma piada de extremo mau gosto, levasse um dos palhaços. Imaginei que um dia poderia ver minha amada trocando de fantasia, vestindo-se de noiva. Um vestido vermelho. Fantasia, não no sentido do que é ilusório, mas no sentido do que é mágico, encantador, e, por isso, tão verdadeiro.

Por tudo que acreditava, acreditava que minhas palavras eram ouvidas, entendidas ou ao menos respeitadas. Acreditava numa outra forma de viver a vida. Com criatividade, com entrega, com cumplicidade. Busca que se tornou inútil. Porque depois que o espetáculo inicial termina, um a um se vai, deixando o palhaço só num picadeiro frio.

Todos poderiam ir. Mas aquela moça, aquela que parecia tão feliz com cada gesto meu, e que me olhava com tanta empolgação e ternura, também se foi… porque também era livre para ir. Como era livre pra ficar. Mas não ficou. Achou-me sem graça e sem serventia. Que valor há num palhaço depois que o riso já foi saciado?

Um palhaço que não consegue ao menos conquistar o amor da mulher que ama. Por isso sou palhaço, que rimo com fracasso. E por ser palhaço, minhas lágrimas não são levadas a sério, não são acreditadas. Minha dor não é importante. Porque o corpo morto e estendido no centro do palco no dia seguinte é de um palhaço. E palhaços não fazem falta. Palhaço não é gente.

Por mais real, autêntico e verdadeiro… Palhaço não merece amor, perdão, credibilidade, atenção ou respeito. Afinal, palhaço nunca passa de um palhaço.

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Inspirado em um texto italiano, de um autor anônimo.

 

Branco

outubro 24th, 2006 § 0 comments § permalink

Vivia o menino com os pais naquela casinha pobre do interior, em frente da linha do trem. Constante trabalho árduo, comida escassa, vida difícil. A incompreensão do menino foi-se tornando revolta na medida em que se tornava adolescente. Em cada pequena ou grande dificuldade, culpava os pais pela situação. Passou mesmo a sentir ódio. E o alvo do ódio já não era a situação, mas sim o pai e a mãe. Ele se enfurecia, xingava, maltratava… Mal via a hora de completar a maior idade e poder fazer o que bem queria de sua vida, sair daquela desgraça que, segundo ele entendia, era criada propositalmente pelos pais. Não enxergava o esforço, o amor e as dificuldades que eles tinham em criá-lo, em dar-lhe pelo menos uma educação decente, com valores, com honestidade, com trabalho e com ética. Às vezes tudo era insuportável. A mãe não sabia como fazê-lo entender e enxergar o amor que tinha por ele. Tampouco o pai, que já havia desistido de ter uma vez na vida uma palavra de apreço ou carinho da parte do filho. Achava ele que a paciência e compreensão dos irmãos na verdade era conivência com aquela conspiração para tornar sua vida miserável e infeliz. As brigas e discussões viraram companheiras das dificuldades daquela família pobre do interior. O inferno de fora era espelho do inferno de dentro.

Assim que pôde, resolveu sair de casa. Ir para a capital, ter uma nova vida. Por mais difícil que fosse, não poderia ser pior do que a vida que ele já levava, assim era seu pensamento. Num dia de manhã, ele simplesmente não estava mais lá. Sem bilhete, sem aviso. Os primeiros anos na cidade grande foram mais cruéis do que ele imaginava. Sentiu na pele a fome, a humilhação, a discriminação, mas não desistiu. Era uma pessoa obstinada em seus objetivos. Terminou seus estudos, conseguiu finalmente um emprego melhor e deixou as camas de pensões, conseguiu alugar uma pequena casa. Anos continuaram a passar e ele progrediu profissionalmente, apaixonou-se, casou-se, conseguiu financiamento para uma casa própria e com o tempo também teve seus próprios filhos. Quando perguntado pelo seu passado, até por sua esposa, evitava conversar. Aquele tempo era algo negro pra ele em sua vida, que preferia esquecer ou dar por esquecido. Guardava profundo rancor e raiva de seus pais, pelo que, em seu entendimento, o haviam feito passar.

Mas as pessoas aprendem, amadurecem. Seus filhos já na escola… E o pensamento sobre os pais voltava, mesmo quando ele não queria. Começou pela curiosidade: como estariam os pais agora? Nunca mais conversou, nem escreveu, nem entrou em contato com eles, após tantos anos. Estariam na mesma casa? Estariam vivos? E seus irmãos? Começou a refletir cada vez mais, não nos momentos maus, mas nos bons. Passou a admitir e a reconhecer cada pequeno esforço da parte deles. As vezes em que a mãe deixou de comer para dar comida a ele. O pai voltando sujo do corte de cana à noite, e mesmo assim com o sorriso no rosto, que nunca dele encontrava reciprocidade. As cenas foram se tornando cada vez mais claras em sua mente e em seu coração. Até que o reconhecimento do quanto foi ingrato tomou conta de si e passou a sentir profunda tristeza pela forma que tratou seus pais durante tanto tempo. Tinha agora os confortos que tanto sonhava, trabalho, esposa, filhos… Mas sentia-se vazio, incompleto.

Pensou por várias vezes em escrever aos pais. Mas tinha vergonha. Depois de tudo que ele fez, eles jamais lhe perdoariam, assim pensava. Um dia, tomado de ímpeto, decidiu que não podia conviver mais com aquela angústia. Escreveu sim. Mesmo que não obtivesse resposta, escreveu. Na carta contou aos pais sua atual situação, que conseguira o que queria, que estava casado, que já tinha filhos. Que reconhece hoje os esforços e o amor que eles sempre tiveram. E que se sentia profundamente arrependido por sua atitude, mas que não esperava perdão, pois nem ele mesmo se perdoava. Disse também que queria que seus filhos conhecessem os avós. Terminava dizendo que não esperava resposta. Que iria viajar ao interior levando a esposa e os filhos e que, para evitar constrangimento, só desceria na estação da cidade caso soubesse que eles haviam-no perdoado. Como saberia disto? Em frente a casa passava a linha do trem. Se em frente a casa, naquele mesmo varal no quintal onde ele cresceu, houvesse estendido um lençol branco, ele entenderia que foi perdoado. Caso contrário, não contaria para sua família o real motivo da viagem e seguiria com eles para outra cidade.

O dia da viagem chegou. Seu coração disparado. Poderia ir de carro, de ônibus, mas preferiu o velho trem, que tanto se acostumou a ver e a ouvir quando criança. Dentro dele, o trem mostrava sua costumeira demora, o tempo parecia não passar. Quanto mais se aproximava do destino, porém, maior era a sua agonia. Pensou em desistir, mas já era tarde. E se não houvesse lençol algum? Como reparar o que tinha feito? O trem continuava, o cheiro de mato, os montes. Seus pais sempre foram muito queridos e admirados na pequena cidade, na verdade, quase um vilarejo. Que estava quase chegando nas janelas do trem e ele já não sabia se olhava ou se ignorava. Estava transtornado, sua família percebia mas preferia não perguntar o porquê. A cidade se anunciava. Faltava um tanto para passar em frente da sua velha casa, mas eis que já despontava a primeira. Um lençol branco no varal. A segunda, uma toalha branca na janela… A terceira, outro lençol branco. Perplexo e profundamente emocionado, assistia ele o desfile de casas cobertas de branco. E outra, e outra… O vilarejo estava com suas casas todas com algum tecido branco, nas janelas, nas portas ou no varal. Inclusive a de seus pais, com uma série de lençóis e panos brancos pendurados por todos os lugares. E seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos, os vizinhos todos em frente da casa, aquela pequena multidão, acenando com as mãos, com sorrisos lindos nas bocas e lágrimas alegres nos olhos.

Entendeu finalmente que o perdão veste branco. E, com ele, a vida reveste-se de amor. O amor, de vida.

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Ouvi esta história há algum tempo… Não sei quem é o autor da história originalmente, mas aqui resolvi recriá-la do meu jeito.

 

Destra educação

setembro 15th, 2006 § 0 comments § permalink

Aprendi a me alimentar de forma “educada” olhando os outros comer. Foi quando abandonei a colher. Tornei-me voyeur de pratos alheios para entender. Achava perda de tempo trocar de mão a faca e o garfo, vez após vez. Mas se era assim que tinha de ser, assim é. Comer com a boca fechada, tirar os cotovelos da mesa, mastigar até cansar de mastigar. Disfarçar a ânsia da fome. Quando desnecessária, não incomodar a faca. O guardanapo sobre a coxa. Ler as cartas com ar de sabedoria. Conhecer os copos. Evitar que a gota conheça a garrafa. Cheirar o vinho antes de tomá-lo. Servir primeiro a dama. Entender e esperar a ordem dos pratos. Evitar o barulho da sopa. Repousar os talheres lado a lado, quase apontados para mim, a informar ao garçom e ao estômago o fim da refeição. Após o serviço prestado, abandonar sobre a mesa o guardanapo com descaso e ingratidão, mesmo tendo sido ele cúmplice em cada sabor. Tratar a conta com indiferença, como se o valor não me provocasse espanto nem me fizesse falta, aumentá-lo para que ele e o sorriso virem gorjeta… Aprendi que deve-se conhecer as regras para conquistar a liberdade de quebrá-las. Que a fome por vezes ignora educação, essa exibicionista que adora ser vista e admirada. E ainda trocaria os talheres de mãos, vez após vez, para satisfazer outro voyeur. Mas minha mão esquerda corta melhor. Sou canhoto metade do almoço.