Prece

dezembro 24th, 2010 § 1 comment § permalink

Desejo que a sua vida inteira seja abençoada, cada pequenino trecho dela, em toda a sua extensão. Que cada bênção abrace também as pessoas que ama e seja tão vasta que leve abraço a outros tantos seres, sobretudo àqueles que mais sofrem, seja lá por que sofrem. Desejo que os nós que apertam o seu coração sejam gentilmente desatados e que os sentimentos que os formaram se transformem na abertura capaz de criar belos laços de afeto. Desejo que o seu melhor sorriso, esse aí tão lindo, aconteça incontáveis vezes pelo caminho. Que cada um deles crie mais espaço em você. Que cada um deles cure um pouco mais o que ainda lhe dói. Que cada um deles cante uma luz que, mesmo que ninguém perceba, amacie um bocadinho as durezas do mundo.

Desejo que volte para o seu mar quantas vezes forem necessárias até encontrar o seu tesouro. Que quando encontrá-lo, não seja avarento. Que descubra maneiras para compartilhar a sua felicidade, o jeito mais gostoso para se expandir a riqueza. Desejo que quando os ventos da mudança ventarem mais forte, e sentir medo de ser carregado junto com tudo o que parecerem arrastar, você já conheça o lugar onde nada pode arrastá-lo. Que já saiba maneiras de respirar mais macio, quando as circunstâncias lhe encurtarem o fôlego. Que, com o passar do tempo, a sua alma se torne cada vez mais maleável, mas que seja firme o bastante para nunca desistir de você.

Desejo que tudo o que mais lhe importa floresça. Que cada florescimento seja tão risonho e amoroso que atraia os pássaros com o seu canto, as borboletas com as suas cores, o toque do sol com seu calor mais terno, e a chuva que derrama de nuvens infladas de paz. Desejo que, mais vezes, além de molhar só os pés, você possa entrar na praia da poesia da vida com o coração inteiro e brincar com a ideia que cada onda diz. Que, ao experimentar um caixote ou outro, não se arrependa por ter entrado na água, nem desista de brincar. Todo mundo experimenta um caixote ou outro, às vezes um monte deles, quando se arrisca a viver. O outro jeito é estar morto. O outro jeito é não sentir.

Desejo que não tenha tanta pressa que esqueça de colher estrelas com os olhos nas noites em que o céu vira jardim, e levar para plantar no seu coração as mudas daquelas mais luzentes. Que tenha sabedoria para encontrar descanso e alimento nas coisas mais simples da vida. Que a cada manhã a sua coragem acorde bem juntinho de você, sorria pra você, e o convide para viverem uma história toda nova, apesar do cenário aparentemente costumeiro. Que tenha saúde no corpo, saúde na alma, saúde à beça.

Desejo que encontre maneiras para se fazer feliz no intervalo entre o instante em que cada dia acorda e o instante em que ele se deita pra dormir, porque a verdade é que a gente não sabe se tem outro dia. Que quanto mais passar a sua alma a limpo, mais descubra, mais desnude, mais partilhe, com medo cada vez menor, a beleza que desde sempre você é. Que se sinta livre e louco o bastante pra deixar a sua essência florir.

Não importa quanto tempo passe, não importa onde eu esteja, não importa onde esteja você, abra os olhos pra dentro e ouça: o meu coração estará dizendo esta mesma prece de amor para o seu. Amor incondicional, exatamente como neste instante. Não importa o quanto a gente mude, o quanto a distância aparente nos afastar, isto que sinto por você, eu sei, não muda nunca mais.

(“Prece para quem se ama”, Ana Jácomo)

 

Ronronando…

outubro 4th, 2010 § 0 comments § permalink

Eu digo que te amo. Você me pergunta, deitada em mim, sorrindo aquele sorriso que é só seu – e, em meus devaneios egocêntricos, também meu – por quê. E são tantos os motivos que eu não sou capaz organizá-los em uma lista, como pede sua apaixonante sensatez. Ainda mais quando sou desafiada por esse tal sorriso que desarma – e, na seqüência – arma. Ainda mais quando tenho você em mim, só para mim, mais minha do que jamais alguém foi – cabelos descansando sobre o meu peito, mãos passeando pelo meu corpo, olhos vasculhando minha alma. Como raciocinar com um barulho desses? Então, para seu entretenimento, e para manter esse sorriso me olhando, vou jogando motivos no universo, sem método ou lógica. Mas, sozinha no silêncio do meu quarto, pensando em você, e nos motivos que me levam a te amar desse jeito tão puro, tão forte, tão sincero, fica muito fácil responder.

Eu te amo porque você chegou sorrateira, como quem não quer nada, mas vestida desse sorriso que é capaz de parar indústria e comércio. Te amo porque você me lê, me dá bola, me embala. Te amo porque você tem mãos lindas, cabelo brilhante, pele cheirosa. Porque você é alta, inteligente e sarcástica. Te amo porque você sabe meus truques, porque você tem olhos de jabuticaba, porque você gosta dos meus piores defeitos. Porque você é adoravelmente arrogante, porque você mexe a cabeça quando dança, porque você dorme com os pés para fora do cobertor. Porque você gosta de Pearl Jam, Ben Harper e Paul Van Dyke, mas também de Chico, Ivone Lara e Roberto Carlos. Porque você torce para um time que eu odeio, porque você acha que meus olhos são os mais bonitos do mundo e porque você entorta a boca de um jeito sapeca quando fala alguma coisa para me provocar. Porque você não precisa de ninguém e, ainda assim, vive rodeada por várias tribos. Porque você mudou de casa para deixar que nossa história pudesse acontecer, porque você nunca teve medo de me deixar entrar, porque você considera me deixar ficar. Porque você ouve a música da vida, e é a mesma que eu ouço, e não vê outra forma de passar por aqui que não seja com ritmo. Porque você inventou a chubby dance, tem um creme para cada ocasião e lê os livros que eu recomendo. Porque você beija como ninguém, mexe no meu cabelo e faz amor olhando nos meus olhos. Porque você me coça, coloca o despertador para tocar uma hora antes do necessário só para poder me namorar enquanto eu ainda durmo, porque você toma banho de manhã e, logo depois, volta para a cama para me beijar mais. Porque você liga várias vezes ao dia para dizer que me ama, para saber se eu estou bem, para me contar sobre sua rotina. Te amo porque você usa salto, tênis e chinelos; vestidos, bermudas e calças jeans. E porque você combina com todos esses estilos. Porque você chora quando fazemos amor, porque você pergunta sobre o meu pai, ri das besteiras que eu falo e gosta de ficar vendo fotos da minha infância deitada ao meu lado. Porque você quer ter uma casa de campo comigo, um lugar onde a gente possa passar a noite olhando o céu e bebendo vinho, porque você respeita minhas neuroses. Porque você gosta de alterar quimicamente a realidade das coisas, porque você adora experimentar, porque você não sabe viver sem flores. Porque você gosta de deitar e colocar minha cabeça no seu ombro, porque você acha que assim me protege, porque você sabe que eu preciso de proteção. Porque de manhã você adora yakult e danoninho, pão na chapa e queijo branco, Calvin e mamão. Porque você ri quando eu vou fazer café e me sujo inteira, porque você vai trabalhar muito cedo e deixa ao lado da cama meus cadernos preferidos do jornal, porque você me deu a chave da sua casa. Porque você cuida da Joaquina, é charmosamente desajeitada e volta e meia escorrega no tapete da sala. Porque quando eu chego na sua casa e você está no banho você passa a mão no vidro do box para tirar a água e me ver melhor, me chama mais perto, abre a porta e me beija molhada. Porque você acha que um dia a gente pode, quem sabe, desafiar o sistema e casar. Porque pensar nisso faz seus olhos se encherem de água, porque você também sabe que normas e padrões podem nos afastar. Porque você comprou um caderninho no qual a gente escreve as besteiras que fala e porque você se diverte muito com isso. Porque você acha que a felicidade está nos detalhes, em passar uma noite comendo peixe, bebendo vinho, colando figurinhas no álbum da Copa, que você me deu de presente, e ouvindo Tom e Elis. Porque, nessa noite, colando figurinhas, ouvindo Elis e bebendo vinho, seus olhos brilharam como nunca. E então você parou tudo, colocou a mão no meu rosto, me olhou bem fundo e me beijou do jeito mais carinhoso do mundo. Porque você entende que o sentido da vida é esse: é amar, ser amada, e criar uma doce rotina. Nossa doce rotina. E que nada mais importa. Porque você sabe que nossa história pode ser precocemente interrompida, e que, mesmo assim, ela já terá valido a pena. Porque ela talvez seja, agora e para sempre, a história mais bonita das nossas vidas.

Mas, se eu tivesse que pegar um motivo apenas, eu diria que te amo porque você é a mulher com quem eu sempre sonhei, mas nunca achei, de verdade, que pudesse existir. Por isso. E também, meu amor, porque você mexe a cabeça quando dança.

(“Nossa doce rotina”, Milly Lacombe)

 

Adeus

agosto 21st, 2010 § 1 comment § permalink

"Slow dancing" por apoetsdream

Fotografia: “Slow dancing” por apoetsdream

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

Desde o teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

(Pablo Neruda)

 

A voz dos teus olhos

julho 18th, 2010 § 0 comments § permalink

nalgum lugar onde nunca estive, alegremente além de
qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio
em teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,
tu me abres sempre, pétala por pétala, como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se quiseres ver-me fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo por toda parte;

nada que possamos perceber neste mundo iguala
o poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com as cores de seus continentes,
restituindo a morte e o eterno em cada respiração

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; apenas uma parte em mim compreende
que na voz dos teus olhos cabem todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, possui mãos tão delicadas

(“Somewhere I Have Never Travelled”, e.e.cummings)

 

A devolução das flores

julho 13th, 2010 § 0 comments § permalink

"Suspicion" por hellolikegoodbye

Fotografias: “Suspicion” por hellolikegoodbye

Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida te enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.

(Caio Fernando Abreu)

 

Nós que nos amávamos tanto

junho 12th, 2010 § 0 comments § permalink

"satellite skin" por Jahblessme

Fotografia: “satellite skin” por Jahblessme

Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu, para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora.

(Trecho de “Quando setembro vier”, Caio Fernando Abreu)

 

MANHÊ

maio 9th, 2010 § 0 comments § permalink

Já não há mais tempo pra dores, feridas, dilacerantes amores. Talvez não seja o exato momento para confissão, latidos, uivos, excitação. Amanhã pode sobrar só o vento e mais nada, alma escancarada no bocejo da manhã. Mas, manhê, ainda tenho você, perdida, apaixonada e demodê. Já fiz muita confusão, torturas, brigas, histerias, porém nunca traição. A quem amei, foi de verdade; aparências ou coisas de minha idade, flertes, boleros, tangos, rocks, blues, ainda que simples vaidades. Minha alma ficou no campo. Eu vim para a cidade. Trouxe tudo, coração mudo, estridente voz rouca, gemidos, inocência louca e miados. Tudo começando. Ainda tudo parado. Poemas de coração fissurado. Discursos inacabados. Peite em transe, desejo ao léu: serão máscaras de hipocrisia vindas do céu? Não sou mais anjo, nem de papel. Já sofri bastante, já me casei e tenho anel. E ser poeta, ser atleta do sensível, futurista do invisível, não é coisa adolescente; é um verbo impertinente, tenente da utopia. Haja tristeza, haja alegria, do verso não me separo. houve sol, houve chuva e me faltou, manhê, um impossível amparo Valeu a pena. E paguei caro.
("MANHÊ", Mônica Montoro)
 

O Beijo

abril 19th, 2010 § 0 comments § permalink

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior… Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto…

(“Um Beijo”, Olavo Bilac)

 

Telhados de Paris

abril 6th, 2010 § 1 comment § permalink

"Poulpe" por boitatou

Fotografia: “Poulpe” por boitatou

Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos… Já vi. Os meus olhos doidos, doidos, doidos… São doidos por ti.

(Trecho de “Telhados de Paris”, Nei Lisboa)

Audio MP3

 

Para sempre

abril 6th, 2010 § 2 comments § permalink

Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhear o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que compartilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres, escutar Dream’ Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.

(“O que eu quero de você”, Milly Lacombe)