dezembro 5th, 2008 § § permalink
Os computadores como ainda os usamos hoje têm em sua base o bit (que é uma abreviação de “BInary digiT” ou “dígito binário”, em Português). Um bit pode ser ou representar em algum dado momento 0 (zero) ou 1 (um). O “binário” no nome é porque ele só pode assumir um desses dois (“bi”) valores citados, nenhum outro. Está “desligado” ou “ligado”, não há outra hipótese. É também a base de tudo que é chamado “digital”. E eu sempre digo que inventamos o “digital” por pura incompetência nossa em aprender a utilizar o analógico. Mas aí é assunto pra outro artigo. O que quero dizer, começando pelo bit, é que nos acostumamos a “isto” ou “aquilo”, “sim” ou “não”, “amor” ou “ódio”, “saúde” ou “doença”, “guerra” ou “paz”, “verdade” ou “mentira” e assim por diante. Ignoramos as infinitas variações e possibilidades entre uma coisa e outra.
Estou lendo outra vez o livro “A Semente da Vitória” de Nuno Cobra, e nele o autor cita que a maioria das pessoas não está doente, mas também não tem saúde. “Saúde é alegria de viver. É estar encantado com a vida. É ter entusiasmo, energia, vitalidade, disposição.”, continua. Concordo plenamente com ele. E cai por terra aqui achar que se está doente ou são. Pode-se não estar nem uma coisa nem outra. No mesmo livro ele descreve como também é um absurdo as pessoas quererem separar corpo e espírito, mente e emoção. E este é apenas o começo. Recomendo muitíssimo a leitura. Vale lembrar que Nuno, dentre tantas outras coisas importantes, é também conhecido por ter sido o preparador físico (e emocional) de Ayrton Senna.
É comum ver numa academia de ginástica muitas pessoas preocupadas com o desenvolvimento físico, esquecendo-se do seu lado espiritual. Também é comum ir a um Centro Espírita e ver as pessoas preocupadas com a espiritualidade, esquecendo-se que têm um corpo. Tanto os primeiros como os segundos não entendem que não há inferioridade ou superioridade entre corpo e espírito. Formam uma coisa só. Além do mais, o corpo é a coisa mais palpável de nossa existência que temos acesso. Assim como o planeta e as coisas que vemos e tocamos são muito mais palpáveis que um “mundo espiritual”. Por outro lado, ater-se apenas a eles é ignorar que o universo é muito mais do que podemos ver ou tocar. Somos corpo e espírito. O universo é “material” e “imaterial”. Não é uma coisa ou outra. São todas. E todas são importantes.
Também recentemente assisti a um trecho de uma entrevista com um filósofo (que agora não recordo o nome) onde o mesmo dizia que as pessoas têm o costume de achar que existe a verdade ou a mentira, que a verdade é o oposto da mentira. Ele dizia que a verdade não pode ser o contrário da mentira, porque não existe verdade. Existem apenas várias mentiras. O que chamamos de “verdade” nada mais é que a mentira que mais nos convence, a mentira que melhor nos convém ou a mentira que mais acreditamos. Ele continua dizendo que a condição primeira para sermos enganados é termos certeza sobre algo. A dúvida, por outro lado, afasta a possibilidade de engano.
Enquanto isso, os líderes de certa religião dizem: “A dúvida em si já é pecado.” É óbvio que, para manter a lavagem cerebral e manter fiéis os “fiéis”, qualquer questionamento é abominado. Imagine o pavor que alguém numa religião assim tem ao fazer a coisa mais natural do mundo em um ser humano: questionar. E imaginam que serão punidos por Deus por duvidar, pensar, procurar, aprender, crescer… “Santa” ignorância! Não foi pra isso que viemos aqui? Cito Murilo Mendes e a minha pouca e humilde experiência para dizer que viemos a este mundo para experimentar a dúvida e a contradição. E que é preciso idolatrar a dúvida. Que é imprescindível duvidar. Questionar tudo. ‘A dúvida é o preço que pagamos pela pureza’, já dizia Sartre. Só os puros não têm certeza.
“Mas, é preciso acreditar em algo, ter fé”, você diria. A dúvida não contradiz a fé. E fé não se instala, se aprende. De olhos abertos, longe das cavernas. Se quiser mesmo acreditar em algo, acredite na liberdade e na diversidade. Se quiser ter fé em alguém, tenha em si mesmo. Deus não precisa da nossa fé. Nos criou livres e sabe aonde podemos chegar, se quisermos. E está lá, seja onde for, dizendo: “Vai filho, tenho fé em você! Sei que consegue. Vai!”
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Publicado em 06/12/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
novembro 20th, 2008 § § permalink
Há não muito tempo os professores do ensino público podiam dar-se ao luxo de chegar numa sala de aula absurdamente silenciosa, numa escola com aparência de hospital ou quartel militar, com os poucos alunos devidamente uniformizados e alinhados em suas carteiras, esperando o momento de sentar-se e então efetuar a cópia da matéria que o aluno (ou aluna, quem sabe numa sala mista?) mais aplicado escreveria na lousa enquanto o “mestre” se sentaria à sua formosa mesa de madeira, folheando frivolidades, aguardando simplesmente o final do período e o polpudo salário no final do mês. Qualquer indisciplina poderia ser tratada até fisicamente por ele próprio ou então encaminhado ao temido diretor. O ano era recheado de atos cívicos, homenagens à bandeira, hinos em uníssono. Após cursar no Grupo Escolar, alguns alunos podiam tentar através do Exame de Admissão uma vaga no Ginásio. Aos que conseguiam, nova disputa haveria daí a quatro anos, se no caminho já não tivessem desistido ou sido expulsos, para o Científico, Clássico ou Normal. (Depois e principalmente às mulheres, a Universidade estava fora de cogitação.)
É dessa educação que privilegiava a matemática e a cega “decoreba” em todas as outras matérias, aliada a uma disciplina militar, onde valorizado era o aluno que não tinha iniciativa, que aceitava o sistema, que se empenhava em não mostrar criatividade ou identidade própria, que se contentava em ser apenas mais um tijolo no muro (dá-lhe Pink Floyd)… É dela que muitos professores ainda hoje têm saudade e dizem que nessa época sim a educação existia e eles eram respeitados. Assim como o padre que se achava o único elo entre Deus e os leigos, o professor achava-se a única ponte entre o conhecimento e o aluno. “Conhecimento”, aliás, completamente limitado, censurado, preconceituoso, ineficaz e tedioso.
Na escola de hoje todos devem estar na sala de aula e juntos, independentemente de classe social, cor de pele, crenças, ideologias, necessidades especiais e tantas outras “diferenças” que eram completamente excluídas pelo antigo sistema de ensino. E isso incomoda a muitos “mestres” que ainda estão na ativa. Dizem que o sistema atual forma ignorantes que mal sabem ler ou escrever o próprio nome. Alegam que muitos alunos não merecem nem deveriam estar na sala de aula porque “não prestam”, porque são “burros”, porque são “mal educados”, etc. Quem é que está formando quem?
Numa das últimas vezes que escrevi sobre isso quase fui processado pelas partes pretensamente “ofendidas”. Não generalizo, mas a verdade é que a idéia de que todos têm direito à educação (e uma educação verdadeira e de qualidade) vai de encontro à enorme falta de vontade ou completa incapacidade de se adaptar às mudanças ocorridas na sociedade nas últimas décadas, incluindo a evolução das próprias pessoas, dos meios de comunicação e da tecnologia. “Certo” é sentar-se na cadeira, esperar que os alunos copiem silenciosamente a matéria e receber um ótimo salário ao final. É evidente que o salário pago ao professor hoje em dia é uma brincadeira. Mas sempre insisto que professor mesmo é aquele que o é por vocação. Dinheiro hoje no Brasil é pra quem tem bunda grande, canta pagode ou sabe jogar futebol, ou se aventura na política, contrabando ou tráfico de drogas (que estão praticamente no mesmo nível).
Muitos desses alunos que “não prestam” ou são “burros”, entretanto, são capazes de aprender em minutos como operar um celular, um mp3 player, um notebook; sabiam usar sites de relacionamento e programas no computador mesmo quando esses ainda estavam apenas em inglês e não havia tradução. Sabem chegar a qualquer lugar e exigir respeito, exigir seus direitos… São bem informados, têm criatividade, identidade. Têm enorme capacidade de aprender e sede pelo aprendizado. Que ainda não é suprida na escola. Então há algo errado. Quem “não presta” e quem é “burro”? Claro que há exceções e, por isso mesmo, peço que entendam que admiro profundamente tantos professores e professoras que se empenham árdua e heroicamente na linda e sagrada tarefa que é ensinar. Mas, seja como for, se os alunos hoje não estão “aprendendo”, há muito foi a hora dos professores começarem a aprender. Porque, se ainda não entenderam, também são alunos.
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Publicado em 22/11/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
novembro 13th, 2008 § § permalink
Todos nós temos limitações e limites, que embora sejam palavras semelhantes, não significam a mesma coisa. Limitação é algo que restringe ou impede de ir adiante; limite é como se fosse uma fronteira, uma linha demarcatória entre duas coisas. Assim, dizer que alguém “superou as limitações” não é o mesmo que dizer que alguém “passou dos limites”. Alguns limites podem ser bem claros e muito bem definidos. A fronteira entre o México e os EUA, por exemplo, são limites muito bem definidos e sabemos o que costuma acontecer com quem tenta passar desse limite sem autorização. Outros limites são bem mais tênues e muito difíceis de serem claramente descritos. É o caso, por exemplo, do limite entre a sensualidade e a vulgaridade; ou entre o mau-humor e a falta de educação.
Se muitos sábios, filósofos e estudiosos do passado e do presente falaram e falam bastante sobre conhecermos a nossas limitações para que possamos superá-las, um número bem menor (ao menos do meu conhecimento) cita sobre conhecer sobre nossos próprios limites, saber quais são e onde estão. Seria também muito importante conhecermos os critérios que usamos para aplicar esses mesmos limites, no que se refere a nós mesmos e aos outros. É comum haver muitos pesos e medidas nisso. Por exemplo, imagine que alguém pareça ter ultrapassado o limite do que seria comumente aceitável para determinada situação: se essa pessoa formos nós, muitas vezes alegamos que tal limite não foi atingido; se essa pessoa for alguém pela qual temos afeto, podemos fazer vista grossa e fingir que não a vimos ultrapassar o limite, ou seja, tornar o limite mais elástico; se for alguém estranho podemos querer aplicar o limite com “justiça” e “precisão”, exatamente onde achamos que ele se encontra; se for alguém que não gostamos, podemos querer que o limite seja muito mais rígido ou mesmo alegar que o mesmo foi ultrapassado quando ainda não foi (e talvez nem seria).
Saber sobre limites ajuda também a impor limites. Muitas vezes é preciso. Num emprego, por exemplo, existe o limite entre ser um bom e prestativo funcionário e uma pessoa subserviente. Em qualquer relação é preciso que os limites sejam definidos por ambos os lados, e redefinidos e revistos de tempos em tempos. Muitas vezes houve exagero para menos ou para mais. Outros podem deixar de existir. Alguns são bem menos mutáveis: como os casos da honestidade e desonestidade, lealdade e deslealdade, honra e desonra, respeito e desrespeito, dignidade e indignidade. Porém, mesmo assim, é preciso levar em conta que cada contexto e cada pessoa tem suas próprias “marcas” e “fronteiras” para cada coisa. O que um pode considerar desrespeitoso outro pode considerar aceitável. Outro ainda pode considerar que é desrespeito se algo vir de uma pessoa, mas se vir de outra, com quem tem outro tipo de relação, já não o é.
O certo é que conhecemos tão pouco nossos limites assim como conhecemos tão pouco nossas limitações. Quantas vezes você já viu alguém lutar tanto por algo que queria muito… E lutou por tanto tempo, com tanto esforço, insistiu tanto naquilo… E, depois, quando poderia estar até perto de talvez conseguir, desistiu? Por que havia tanta importância antes e não houve mais importância alguma depois? O que foi que serviu como limite ou fronteira? É interessante saber até o quanto podemos resistir tentando ou quando é a hora de ceder, para qualquer lado que essa frase se aplique. Preciso é também saber que há coisas que, por mais que lutemos ou queiramos, não acontecerão. E que há um limite entre a esperança e a ilusão.
O mais importante a entender sobre limites, entretanto, é que muitos deles que achamos existir são imaginários ou não passam de suposições e especulações. A maior parte é criada por nós mesmos. E se certos limites não existissem ou se fossem outras as linhas demarcatórias? Seria mais fácil ficarmos longe do que é mau, danoso ou perigoso; ou irmos adiante em direção do que é bom, construtivo e seguro. Descobrir se os limites existem ou onde estão depende do mesmo que usamos para saber quais são nossas limitações: conhecer a si mesmo. Há limites esperando ser atravessados. Há limitações esperando ser superadas. Esperando que saibamos onde está o nosso limite entre pensar e agir.
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Publicado em 15/11/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
novembro 6th, 2008 § § permalink
Impossível não comentar os acontecimentos recentes. No início da semana o primeiro piloto negro na Fórmula 1, Lewis Carl Davidson Hamilton, sagrou-se o mais jovem campeão da categoria (é claro que eu estava torcendo por Felipe Massa, que por cerca de 38 segundos foi também campeão, mas vale o título ao Hamilton pela soma dos dois anos [apesar do campeonato ser anual] e pelas falhas ridículas da Ferrari neste ano). Poucos dias depois foi eleito nos Estados Unidos da América o primeiro presidente negro em sua história, Barack Hussein Obama II (é claro que eu estava torcendo por ele mesmo). Não pude deixar de acompanhar a contagem dos votos ainda mais apreensivo do que acompanhei a última volta da corrida. Coincidência ou não, Hamilton e Obama são até, com certa licença e levando em conta a diferença de idade, parecidos fisicamente.
São, no meu humilde ponto de vista, duas as principais coisas que chamam a atenção nesses eventos. A primeira é que, após tantas crueldades e injustiças históricas, é muito, muito bom haver alguém que foge ao padrão “macho, adulto e branco” no comando. Ou quase, melhor se fossem mulheres negras. Mas é um grande avanço, de qualquer forma. A segunda é que a cor da pele, apesar de importantíssima por todos os fatores históricos sabidos, não é necessariamente o que os fez chegar onde estão, foram suas ações. É como se uma vez conquistada a posição onde um negro antes jamais sonharia chegar, o recado e o ensinamento complementar seja claro: a cor da pele realmente não importa. Todos, independentemente de cor de pele, de sexo, de crença, de ideais, de posição social… Somos iguais.
Para não restarem mal-entendidos, vou explicar melhor certos pontos do meu argumento (embora mal-entendidos sempre possam restar, de qualquer maneira). É sabido que muitos racistas (declarados ou velados) acreditam e pregam que os negros são inferiores. Quando um negro consegue algum destaque, seja por sua competência ou por qualquer outro fator, costumam amenizar: “é um preto de alma branca”, querendo na verdade dizer que é um branco vestido de pele negra, que na verdade só brancos podem ou têm o direito a certas coisas. O que eu acredito e quero dizer é o oposto. Hamilton e Obama são negros, de alma negra. Mas foi preciso que eles, negros, chegassem à vitória (cada um em seu contexto) para deixar claro que a “cor da alma” também tampouco importa. Importa é que somos humanos e que qualquer tipo de segregação é burra, além de má e danosa.
Quero lembrar também que, ao ter um presidente negro, os EUA demonstram que estão à frente do Brasil mais uma vez. Que são capazes de se superar, de superar seus mais arraigados preconceitos. Enquanto o Brasil, o país onde se diz que não há racismo, continua mais racista que nunca. Nosso país encontra-se estacionado no momento pós-abolição, onde diz-se que o negro é livre mas, na prática, perpetua-se que deva ser tratado como escravo. Poderia alguém contra-argumentar: “ah, mas temos Lula, que não é negro mas é pobre”. Bem, Lula faz-se de ignorante e simples, ao seu interesse. Pobre certamente não é há muito tempo. O patrimônio pessoal declarado de Lula em 2006 era de R$ 839.000,00 (o de Alckmin era R$ 691.000,00). Quem tem esse dinheiro no Brasil e pode se dizer pobre? A não ser pelo motivo de querer comover os realmente pobres, paralelamente comprando-os com “caridades” bancadas por outras mãos. O caso de Lula é bem outro. Tanto quanto a competência, a incompetência também não tem cor ou posição social.
Voltando aos EUA, a vitória de Barack Obama não é o fim. É o começo. Que seja possível realizar e avançar em todas as questões sociais, políticas e econômicas. Que haja mesmo mais avanços que decepções. Mas, independentemente do que acontecerá, fica já a nós uma lição. A maior parte dos brasileiros é mulata ou negra; a maior parte dos governantes e grandes empresários é branca. A distinção, a crueldade, a discriminação, a humilhação e a segregação continuam existindo, tacanhas. Está em nossas mãos mudar tudo isso. É possível? Podemos? Quero finalizar dizendo a todos os negros, índios, brancos, mulheres, homens, homossexuais, crianças, idosos, pobres e ricos, com ou sem estudo, o mesmo que Obama disse aos EUA e ao mundo: sim, nós podemos!
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Publicado em 08/11/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
outubro 23rd, 2008 § § permalink
Muitas tecnologias novas são demonizadas ou endeusadas pelas pessoas no início, até se tornarem corriqueiras. Foi assim com o telefone, com o rádio, com a televisão… E foi assim com a Internet também, que hoje já não é mais novidade. Insisto que nenhum meio de comunicação é ruim ou bom em si. Na verdade, todo meio de comunicação é bom. Tudo que faça as pessoas se comunicarem melhor e mais, é bom. Agora, o conteúdo dessa comunicação, a qualidade desse conteúdo, depende do uso que as pessoas fazem desses meios. Temos escolhas, mesmo quando a comunicação é unilateral. Num domingo à tarde você pode escolher ver Fausto Silva na televisão ou pode mudar de canal para a Cultura ou Futura (isso se não tiver TV paga, onde as opções crescem enormemente). Mas você ainda pode escolher não ver televisão e fazer algo ainda mais produtivo.
Quando, há vários anos, eu ficava um bom tempo na Internet muitos achavam estranho. Trabalhava já com Internet e, ao mesmo tempo, através dela descobri formas de entrar em contato com muitas pessoas, tanto conhecidas como desconhecidas, pessoas com gostos semelhantes em certas coisas, hobbies, etc. (E nem havia Orkut ou MSN ainda. Usávamos o IRC e no máximo o ICQ.) Conforme o conteúdo da web foi aumentando, fui descobrindo também uma fonte realmente enorme de aprendizado, cheia de matérias, artigos, fóruns e informações a respeito de coisas que eu quero e adoro aprender. Hoje sou eu que me espanto, porém. Porque vejo as pessoas passando muito mais tempo do que eu passava (ou ainda passo) na Internet. E quase nenhum tempo com elas mesmas ou com quem está ao seu lado fisicamente.
Mas, ainda não disse o que queria dizer nesse artigo… É que me lembro até hoje quando recebi meus primeiros e-mails. Era algo lúdico e surreal pra mim. Uma pessoa poder enviar uma mensagem de qualquer canto do mundo e outra quando fosse verificar sua “caixa postal”… Lá estava a mensagem! Assim como sei como os correios normais funcionam, também quis aprender como os protocolos da Internet funcionam, o que faz um e-mail chegar a alguém. E aprendi. Mas a capacidade de me encantar com algo, mesmo sabendo como funciona, é uma das coisas que continuamente busco.
Mais de uma década depois, continuo encantado com o potencial que a Internet e tecnologias relacionadas têm e o que oferecem. Por outro lado, passei a receber centenas de mensagens com propagandas indesejadas (spams). Ter aberto uma conta de e-mail no Gmail levou isso a quase zero (os sistemas anti-spam e antivírus deles são mesmo os melhores). Mesmo assim continuei recebendo dezenas e dezenas de mensagens de conhecidos com tudo quanto é tipo de conteúdo. Desde apresentações sentimentalóides com textos mudados ou com autores trocados, até piadas de muito mau gosto. Quanto aos textos, há quem mande alguns que energizam o dia. São textos lindos e que realmente valem à pena enviar adiante. Mas isso é exceção. Quanto às piadas… Está bem, algumas são até engraçadinhas. Mas outras… Há quem mande fotos ou vídeos de tragédias. E mandam como se fosse piada. Nesta semana recebi uma que me deixou mal boa parte do dia depois. A cena, real e horrível, foi enviada como sendo piada. Lamentável alguém tê-la enviado. Repugnante é que achou piada nela.
Desde as cartas de papel, que até hoje são tão gostosas de enviar e receber, embora tão raras, é possível se comunicar com alguém mais distante. Mas hoje que é tão fácil mandar um e-mail ou SMS, ou até mesmo usar o telefone, é preciso evoluir não a tecnologia, mas quem a usa. Na era tecnológica continua valendo o sábio provérbio indiano: “Cuide que suas palavras sejam melhores que seu silêncio.” Antes de enviar uma mensagem é interessante que se pense como aquilo afetará outra pessoa, se acrescentará algo de bom a ela e ao seu dia. Se não, é possível enviar mensagem assim mesmo, mas muito mais simples e válida: “Oi. Lembrei de você. Beijo!” (É claro, desde que não a mesma pra todo mundo em uma lista.) Temos hoje facilidade na comunicação como nunca antes. Mas, facilidade não deve ser confundida com banalidade. O que falta? Qualidade. E dedicação. Dedicação no sentido que alguém parou, pensou mesmo em você e resolveu lhe escrever ou enviar algo de bom ou útil. Isto é boa comunicação.
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Publicado em 25/10/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
outubro 17th, 2008 § § permalink
Qual foi a melhor banda de rock nacional da década de 80? Pergunta difícil de responder, né? Para quem nasceu depois ou ainda era criancinha, a década de 80 (sim, do século passado) foi uma das épocas mais ricas para o que se convencionou chamar de “rock nacional”. Foi nela em que aconteceu a descoberta pelo público (e depois pelas gravadoras) de toda uma geração, antes escondida em garagens e ainda em formação, de jovens roqueiros. Não havia ainda sido criado um rótulo. Com influências diversas, passando pelo “new wave”, “punk”, “reggae”, “pop” e o próprio “rock” das décadas anteriores, como seria a cara do “rock nacional”? Estávamos por descobrir.
Os temas inicialmente eram bem bobinhos e vários dos discos de bandas depois tão diferentes poderiam até ter sido gravados por outras da mesma época que poucos notariam a diferença. “Gang 90 & as Absurdettes” e “Blitz” exemplificam bem a “bobeira” a qual me refiro. Mas eram legais assim mesmo porque a “bobeira” era uma escolha, não um acidente. É preciso dizer que essas duas bandas, juntamente ao evento “Rock in Rio” realizado em 1985, abriram caminho para que o “movimento” do rock nacional ganhasse força e acontecesse efetivamente. Contribuiu em muito também os shows realizados no “Circo Voador”. Saíram de lá mais conhecidos: “Os Paralamas do Sucesso”, “Kid Abelha e os Abóboras Selvagens” e “Barão Vermelho”, só para citar alguns. Algumas rádios, como a “Fluminense FM”, ajudaram a revelar, dentre outras bandas, o “Biquini Cavadão”. Da cidade maravilhosa ainda e pioneiramente só de mulheres: “Sempre Livre”.
Saindo do Rio e indo aos “pobres paulistas”: “Ultraje a Rigor”, “RPM”, “Titãs” e “Ira!” contribuíram também para criar a cara desse rock nacional. Mas tudo era ainda muito restrito ao “eixo Rio-São Paulo”. “Longe demais das capitais” estavam outras bandas. A partir da coletânea “Rock Grande do Sul” elas puderam conquistar mais espaço. Do Sul vieram os “Engenheiros do Hawaii” e “Nenhum de Nós”. E de Brasília, a cidade no meio do nada, haveria rock do bom? Havia. Do “Aborto Elétrico” criou-se a “Legião Urbana” e “Capital Inicial”. De lá também a “Plebe Rude”. Bandas que, com toda a razão, tinham um cunho mais de protesto. A Bahia, que já havia dado “régua e compasso” para a MPB, trouxe também o “Camisa de Vênus” (nome extremamente chocante para uma banda na época).
Qual a melhor? Talvez todas sejam, porque se completavam. Cada uma trouxe uma visão rica e própria sobre o país, a juventude e o contexto da época em que viviam. Passando pelas bobagens, pelo deboche, pela megalomania ou pela seriedade, há para todos os gostos. Um problema, talvez, é que algumas bandas eram bobas demais. Outras, sérias demais. E entre elas havia as que se levavam a sério demais, tornando-se até mesmo chatas. O desafio, entretanto, maior que o “mercado” depois querer saber de lambada, neo-sertanejo, axé, “pagode” e “funk”, foi se adaptar aos novos tempos, sabendo que a inocência dos anos 80 havia se acabado. Criar o novo em meio à mesmice instaurada nas décadas de 90 e 2000. Alguns poucos dos bons permaneceram, muitos deles se desfizeram. Se não por falta de adaptação, mas pelo próprio tempo. Nem todos querem tocar rock ou fazer parte da mesma banda a vida toda.
Poucas boas bandas surgiram depois de 80. Mas, na de 90, é preciso citar “Cidade Negra”, “Los Hermanos”, “O Rappa”, “Charlie Brown Jr.”, “Raimundos”, “Detonautas Roque Clube” e “Catedral” (ex-gospel). E que Minas Gerais entrou pra valer no circuito com o “Skank”, “Jota Quest” e “Pato Fu”. Do Recife, “Chico Science & Nação Zumbi”. Ah, e tivemos também o hilariante “Mamonas Assassinas”. Já nos anos 2000 muitas (ou quase todas) das bandas antigas remanescentes acabaram por “revisitar” seus velhos sucessos no formato acústico. Algumas coisas boas saíram disso, outras nem tanto.
Hoje finalmente começamos a quebrar algumas fronteiras entre os gêneros musicais. Misturam-se rock, MPB, samba, rap, folk, dance, jazz, new age… Mas falta vencer o conceito de música como produto, a chatice moderna e o “politicamente correto”. Uma exceção a isso é “O Teatro Mágico”, independente e que mistura música de vários estilos, e ainda mais: teatro e circo. Ou seja, não há um caminho. Com criatividade, há todos.
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Publicado em 18/10/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
outubro 9th, 2008 § § permalink
O talento está entre aquelas tantas coisas subjetivas na vida e que estão tão longe de ter uma única ou cabal definição. Mas, pode-se dizer que talento é uma aptidão notável numa pessoa para algo. Acredito que nascemos já com numerosos talentos, numerosas aptidões notáveis, para muitas coisas. Cada um com seu conjunto de talentos. A aquisição de um novo talento durante uma vida, embora não considere impossível, acho menos provável. É mais fácil descobrimos um novo talento numa área em que não experimentamos antes que criarmos do nada um talento numa área em que sabemos não ter (saber não é achar). Mas, nenhuma possibilidade pode ou deve ser descartada. Acreditar é tudo.
Eu diria ainda que o talento é uma potencialidade. Potencialidade? Sim… Pode-se, por exemplo, ter nascido com um DNA onde está “escrito” que terá, quando adulto, a altura de 1,90m. O fato de no DNA constar aquela altura não significa que realmente a terá. Isso é uma potencialidade, se terá ou não dependerá das condições em que crescer, muitas delas não escolhidas. E também e muito de suas escolhas. Como se alimentará, se fará exercícios físicos, se prevenirá doenças, etc. Pode ser que venha a ter ainda mais que 1,90m de altura, se assim for viável, através das condições em que viver e das oportunidades que tiver; e se for de sua vontade, através das suas próprias escolhas. (A altura é apenas uma analogia. Ser mais alto fisicamente não é talento tampouco garantia de ser mais alto como ser humano.) Muito semelhante é se um talento será desenvolvido até chegar à sua concretização na forma em que as pessoas comumente chamam de “sucesso”.
Há casos de talentos extraordinários que são desperdiçados por falta de condições de serem realizados. O melhor neurocirurgião do mundo pode ter crescido sem acesso à comida, saúde e educação… Sabe quem ele é? Aquele menino de onze anos que vigia a entrada do morro, portando uma arma. Onde conseguirá dinheiro pra comprar o tênis, celular, drogas e outras coisas que quer, mas que também fará que essa “curtição” acabe antes dos dezesseis anos, através de uma morte abrupta e estúpida. Nem chegou a ter a oportunidade de saber que tinha o talento para ser neurocirurgião e escolher se queria mesmo desenvolvê-lo ou não. E aí chegamos a outro ponto. Existem pessoas que têm sim condições e sabem de seu talento, mas escolhem não desenvolvê-lo ou realizá-lo. Não devemos criticá-las. São livres para escolher. Sempre somos e sempre seremos.
Mas, e se uma pessoa teve e tem as condições, é consciente de seu talento e quer mesmo desenvolvê-lo… O que faz algumas conseguirem realizá-lo e outras não? Há casos de pessoas que não tinham o menor talento pra determinada coisa, mas tinham determinação, disciplina e perseverança. Trabalhadoras incansáveis em superar seus próprios limites; ao mesmo tempo alunas ávidas e atentas em aprender e melhorar. E então conseguiram! Num esforço tão maior do que quem tem talento inerente, mas conseguiram. Outros, talentosos, jamais saíram do lugar. Ou, se saíram, saíram só um pouquinho. Ter um talento não basta. Querer algo também não. É preciso fazer. A grande diferença do sábio não é saber, é aplicar o que sabe.
Enquanto preguiça, desatenção, arrogância e displicência são as inimigas do talentoso, disposição, concentração, humildade e zelo são as amigas de quem pretende algo, mesmo não tendo aquele talento. Já vi cantoras sem voz darem um show de interpretação. Imagino o quanto, a cada dia, pratica pra chegar naquele ponto, superando seus limites. E já vi talentosos corredores de Fórmula Um se contentando com segundos e terceiros lugares, sabendo que podiam mais se tivessem um empenho maior. Mas aí chegamos ao que eu disse anteriormente, o “sucesso”. O que é sucesso pra um pode não ser pro outro. O que é importante para um pode não ser para o outro.
Acredito que o maior sucesso que um ser humano possa ter em sua vida é o aprendizado. O aprendizado de si mesmo, que tornará possíveis todos os outros aprendizados. E a superação dos seus próprios limites porque mais importante que conseguir ou não conseguir fazer algo é o que se aprende durante o processo. Crescer como pessoa e evoluir para então estar apto a receber novos talentos. E maiores aprendizados.
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Publicado em 11/10/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
outubro 2nd, 2008 § § permalink
Você conhece muitas pessoas que abandonaram sua profissão, seu próprio tempo e até sua própria vida com o intuito de ajudar os outros? Acredito que poucas, não? Dessas que você talvez conheça, sabe de alguma que enriqueceu bastante financeiramente após ter adotado esse estilo de vida completamente solidário e altruísta? Não conhece nenhuma? Pois… Eu também não. Tirando alguns grandes nomes da história, é raro haver alguém que atinja esse grau de desprendimento e que consiga idealisticamente seguir o que se propôs fazer. Sem esperança de retribuição financeira, poder ou fama. Fazer porque acredita que é o certo e que deve ser feito. Ter tão somente a recompensa de ver tantas pessoas ajudadas, tantas boas causas defendidas… A grandeza que só o grande bem traz.
Por que comecei falando disso? Porque quero falar sobre política. Ou, melhor, sobre políticos. Essas seriam pessoas que, de forma abnegada, deveriam se encaixar na descrição acima. Se fosse mesmo assim, quantos políticos você acredita que estariam lutando por seu voto? Quantos estariam tão ávidos em se candidatar e ganhar as eleições? Para viver uma vida simples, sem dinheiro, apenas representando, ajudando e defendendo a população de onde vivem? A história é bem outra, nós sabemos. A política não é um ideal como muitos deles pregam (outros já nem se dão mais ao trabalho), mas um meio de vida. Uma forma de ganhar muito dinheiro, poder e fama.
Há muitos anos trabalhei numa empresa cujo dono apoiava um determinado candidato a prefeito. Eu não o apoiava, mas como trabalhava na empresa acabei por vivenciar e respirar todo aquele meio de campanha eleitoral. Foi muito bom para descobrir e confirmar o que eu até então já sabia, mas não podia comprovar. Fora das propagandas políticas, dos comícios, das caminhadas pelos bairros e centro da cidade… Ou seja, em particular, em nenhum momento o “povo” era citado ou levado em conta. Era um detalhe, um meio para atingir um fim: ganhar as eleições. Os eleitores eram um mal necessário, que deviam ser convencidos e, após o voto, descartados. Isso se dava tanto com o tal candidato a prefeito como a vereadores. Também todas as pessoas, mesmo não sendo candidatas, que os apoiavam. Todos queriam um cargo ou um favorecimento caso tal pessoa ganhasse. Não era também exclusividade desse partido e dessa campanha. Nos bastidores dos debates e nos encontros entre os adversários era nítido que os outros partidos e outros candidatos tinham também a mesma atitude. Campanhas eleitorais envolvem muito dinheiro. Uma vez ganha, envolve muito mais dinheiro ainda e distribuição de favores e poder.
Mas, num estado verdadeiramente democrático e de direito, a teoria seria outra: você acredita em algo de bom que possa ser feito para sua comunidade? Conhece alguém que possa fazer isso? (Talvez até você mesmo.) Procure então um partido político que tenha idéias que se alinhe com seus ideais. Não existe? Encontre outras pessoas que possuam os mesmos ideais e crie um partido político para defendê-los. Daí comece a trabalhar para que haja uma candidatura viável para que essa pessoa que fará o que você acredita (ou você mesmo) ganhe as eleições. Uma vez lá, trabalhe para que o ideal seja realmente cumprido e ajude constantemente em seu cumprimento. Parece bonito, não? Talvez até fosse se alguma vez acontecesse. O cidadão comum não tem a menor esperança ou chance de colocar isso em prática. Todo o sistema atual, contrário a qualquer ideal nobre, já está pronto, funcionando e parece intocável.
Amanhã será o dia das eleições para prefeito e vereador. O que fez a melhor campanha (a que teve maior aporte de dinheiro) ganhará. As pessoas votarão em músicas bonitinhas e grudentas, em dentaduras, em cestas-bases ou em quem está em primeiro lugar nas pesquisas (que paradoxo: o efeito e a causa trocam de lugar). Num estado “democrático” e de “direito” como o Brasil, somos obrigados a votar. Também é obrigado a comparecer e trabalhar quem foi convocado pra ser mesário (como se não houvesse funcionários públicos suficientes, pagos com nosso dinheiro, para fazer o mesmo serviço). Se todos mesmo votassem em nulo, já seria um bom começo, um belo recado aos candidatos. Mas você é quem escolhe. Arque com as conseqüências.
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Publicado em 04/10/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
setembro 26th, 2008 § § permalink
O dicionário nos diz que motivação é um “conjunto de fatores psicológicos, conscientes ou não, de ordem fisiológica, intelectual ou afetiva, que determinam um certo tipo de conduta em alguém”. Então tá… Mas, o que é realmente motivação? Não sei se é mesmo essa a origem da palavra, mas gosto de pensar nela como descendente de outras duas: “motiva” e “ação”. Ou seja, algo que leva alguém a agir. Em resumo: o motivo de uma ação. Tive um professor que certa vez contou sobre uma conversa com seu pai, onde lamentava por cometer tantos erros. E o pai disse que errar já era uma vitória, porque a maioria das pessoas não sai da inatividade, da comodidade, da letargia. Quem erra, agiu. Venceu a inércia. Errar é uma tentativa. Muitas tentativas conduzem ao acerto. Mas, o que faz uma pessoa tentar, fazer, agir… E outras não?
Há algum tempo escrevi que tenho matado meus ídolos e deles criado pessoas. Porque prefiro admirar suas qualidades, sua índole, seu caráter, seu talento, suas ações… Sua humanidade. Entendo que essas mesmas pessoas não são perfeitas, tampouco superiores. Conheço grandes pessoas, de carne e osso, que estiveram ou estão ao meu lado, que jamais conheceram ou queriam a fama ou reconhecimento. É importante também não confundir uma coisa com outra. A verdade é que todos temos potenciais ilimitados. A diferença é que alguns de nós acreditamos que é possível ir além, outros não. Mas, para ir além é preciso haver motivo ou motivos. A paixão e o amor me parecem ser belos e importantes motivos. Seja por alguém ou por algo. (Não vou conseguir explicar porque alguém se apaixona ou porque ama.)
Para falar sobre a paixão por algo, é impossível não citar Ayrton Senna. É inegável a paixão que ele tinha pelo que fazia. Mas apenas estar ou ser apaixonado pode não levar aonde se quer ir. São necessárias várias ações para chegar lá. Ayrton era determinado, disciplinado e focado no que queria. Sonhava, mas, além disso, tinha um planejamento muito bem feito de como realizar seus sonhos. Com muito trabalho, com fé (no sentido de acreditar mesmo) e com muito talento. Não só nas pistas, mas fora delas. E essa é apenas a superfície. Poderia escrever um livro sobre como ele chegava muitas vezes aos extremos, bons e ruins. Ayrton não era apenas um piloto de Fórmula Um, era um artista. Pintava belos e ousados quadros com seu carro, escrevia poesia nas pistas. Mas fica aqui uma pergunta: e se a Fórmula Um deixasse de existir de uma hora pra outra? O que Senna faria?
Existe uma diferença entre a busca da realização e a busca da felicidade. Alguém pode conseguir tudo o que quer e jamais estar satisfeito ou feliz. Outro pode não ter tudo que deseja, mas ser consciente da abundância presenteada pela vida. Encontrar a felicidade na variedade de experiências, nos detalhes, nas coisas simples.
Muitas pessoas (eu incluso) precisam de motivos para fazer algo. Sem eles não saem de onde estão. Com eles podem tudo, e vão a qualquer lugar. Seja como for, percebo que é possível perder a motivação, por causas sérias ou banais. Como também é possível desistir, por conta de problemas reais ou imaginários. E, se admiramos quem persevera até conseguir o que realmente quer, é preciso também admirar quem tem a coragem de desistir do que não vale à pena. Saber no que insistir e do que desistir vem de perceber quais são as nossas verdadeiras motivações, de conhecer a si próprio.
A grande obra de nossas vidas somos nós mesmos. As experiências que temos, o que fazemos, o que e como escolhemos viver. Quem e o quanto amamos, o que e o quanto aprendemos. E o quanto nos doamos e auxiliamos as outras pessoas nesse mesmo processo, que é infindável. Todos os motivos são válidos se acreditamos que sejam. Mas, talvez o grande motivo de continuar e seguir adiante, a grande motivação de onde vem a força para isso, é estar ciente da vida, do amor e da poesia. A gratidão pelo presente que recebemos. A oportunidade única de estar aqui e escolhermos livremente ser quem desejamos ser. E ser. Para citar Whitman: compreender que o poderoso jogo continua e que podemos contribuir com lindos e valiosos versos. E que os porquês, quando encontrados, sempre revelarão outras perguntas. Tantos outros versos inexplorados a criar e viver.
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Publicado em 27/09/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.
setembro 12th, 2008 § § permalink
Todos temos conhecimento das falcatruas do Poder Legislativo, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Senadores, deputados federais, deputados estaduais, vereadores… Os jornais estão abarrotados de notícias de escândalos e, como também temos conhecimento, tudo sempre acaba em pizza. Quanto ao Poder Executivo, foi re-eleito um homem que é amigo e da mesma laia de tantos políticos e partidários corruptos. Mesmo sendo quase impossível não estar envolvido, alegando que nunca soube ou sabe de nada e ao som de um “deixa o homem trabalhar” bem musicado, lá está ele até 2010, isso se não conseguir mudar a Constituição e ficar por quanto tempo quiser, numa ditadura disfarçada de democracia. Seus ministros, assessores e toda a turma… Nem preciso dizer. Quanto à oposição, não faz oposição, mas compartilha os dividendos das riquezas geradas pelo nosso trabalho. Incluindo também governadores, prefeitos e cada integrante de suas respectivas corjas, tudo não passa de um grande circo onde os palhaços somos nós.
Quem não estava contente em não participar do espetáculo era o Poder Judiciário. Agora com tantos juízes corruptos já podem considerar seus “colegas” dos outros poderes como iguais. É óbvio que não existe justiça no Brasil. Falando em juízes, lembrei dos promotores e advogados. Enfim… O sistema todo não funciona. Indo para a polícia, temos também corruptos ou homens destreinados e mal pagos, cujo poder é tanto que muitas vezes dão uma de juízes, condenando diretamente pessoas à morte ou ao medo, sem o direito algum. Falando em polícia, lembrei do poder paralelo dos traficantes de drogas. E, falando neles, lembro do exército, despreparado e perdido nos níveis inferiores. Mas em níveis superiores, sempre à espreita querendo voltar a ser governo. Quem sabe num outro golpe que será novamente chamado de “revolução”, para mais décadas de censura, terror, torturas e mortes?
Vamos ao “mercado”. Não, não o da esquina que vende sabão em pó e agora junto dele computadores e TVs de plasma. Embora façam parte do mercado também, estou falando de todas as empresas. Das grandes multinacionais que tomaram conta de serviços essenciais e estratégicos, incluindo energia elétrica, telefonia, sistema financeiro, etc., e que tratam os consumidores como lixo. Das pequenas e médias que só conseguem sobreviver, quando conseguem, pagando salários mínimos, oferecendo condições de trabalho ridículas e sonegando impostos. Isso me lembra também o comércio informal, onde pode-se comprar tudo que for chinês, contrabandeado e pirata, vindo pelo Paraguai. E, falando nisso, lembro da nossa indústria, obsoleta, pobre e ineficiente. Que lembra também que toda a infra-estrutura para que ela se desenvolvesse jamais foi criada. Não temos rodovias decentes, tampouco portos ou aeroportos que valham a pena. A malha ferroviária foi sucateada. Brasileiros são “ricos” e andam de carro, pagando absurdos pelo petróleo (mesmo com a tal “auto-suficiência”) e pelo álcool. Sem contar os pedágios exorbitantes, valores pagos pela segunda vez para que aleguem fazer o que os valores pagos na primeira vez, através de nossos impostos, já cobririam com sobra.
Quero também citar a imprensa e a propaganda. A primeira: poderosa, podre e parcial. A segunda: enganosa, mesmo quando premiada. E, falando em premiação, lembro da falta, geral e irrestrita, de cultura nesse país. E da falta de respeito por ela. Que lembra a falta de educação. Não só a acadêmica, onde temos faculdades em que os professores mal sabem o que estão “ensinando” enquanto seus donos sabem lucrar horrores, mas daquela de pai e mãe. Sejam solteiros, separados, juntados ou casados. No religioso ou no civil. E, falando em civil, lembro das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), ex-ONGs, agora capachos do governo. E das próprias ONGs em si: o tão falado Terceiro Setor está cheio de boas intenções das quais o inferno está cheio. Falando nele, e a religião, preciso citar?
Charles De Gaulle já dizia que o Brasil não é um país sério. Em praticamente tudo, talvez essa seja a maior verdade sobre onde vivemos. E, falando nele, lembro que há algumas saídas. Uma delas está em Guarulhos, mais precisamente no aeroporto internacional. Quando funciona…
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Publicado em 13/09/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.