Vermelha

março 19th, 2009 § 0 comments § permalink

Embora a Revolução Francesa tenha acontecido há mais de 200 anos, seus ideais continuam sendo apenas ideais, sem ainda terem se realizado em nosso mundo. Com este artigo termino a trilogia onde pretendi discorrer, respectivamente, sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade (também fazendo alusão às três cores da bandeira francesa). Este ano é o “Ano da França no Brasil” e achei por bem relembrar esses ideais, ainda tão distantes do nosso dia-a-dia.

Quando vejo o atual Papa dizer que combater o ‘homossexualismo’ (sic, o correto é “homossexualidade”) é mais importante que combater a degradação da natureza no planeta, quando vejo essa mesma Igreja punir uma criança por não querer dar à luz um filho que foi fruto de abuso sexual, quando vejo essa “crise” toda que os gananciosos homens de negócio criaram e agora não sabem como sair, quando vejo que um continente tão grande como a África continua simplesmente ignorado como se não fizesse parte do mundo ou do mapa, e tantas outras coisas absurdas acontecendo todos os dias (inclusive em Catanduva) e as pessoas achando que isso é normal… Parece que estamos mergulhados numa nova Idade Média, de escuridão e trevas. Toda a parafernália tecnológica atual não muda em nada o fato do ser humano continuar sendo tão atrasado e tão ignorante, perpetuando conceitos e preconceitos obsoletos e idiotas. Então é mais do que hora de procurar iluminar mais as coisas. De novo. Evoluir de verdade.

Imagine uma comunidade de pessoas onde cada nova criança nascida é filha de todos. Onde sua educação e seu bem-estar são da responsabilidade de todos, parentes ou não. Onde a ousadia do jovem é incentivada e há espaço para ele se desenvolver. Onde a sabedoria dos velhos é realmente ouvida, respeitada e levada em conta. Onde não há o menos ou o mais importante. Onde o conhecimento, o conforto e a riqueza são livremente compartilhados. Onde valores como sensibilidade, respeito, honestidade, honra e dignidade são praticados por todos, naturalmente, em todos os momentos, em todos os dias. Uma sociedade onde a coisa mais preciosa e mais abundante é o amor. O aprendizado e a prática desse amor. Onde cada um tem a consciência que a natureza não é uma entidade separada de nós. Que fazemos parte dela. Somos também ela. Que Deus é e está em todos. E todos são e estão em Deus. Se conseguir imaginar isso, então estamos falando da mesma coisa: fraternidade.

Penso na fraternidade como sendo caminho natural na evolução humana. Quando o ser humano se desvia dela, apenas atrasa seu próprio e inevitável destino. Mas penso também que para alcançá-la é preciso muito, muitíssimo trabalho. Temos todo esse trabalho imenso pela frente. Precisamos mudar o mundo. Devemos mudá-lo.  É nossa responsabilidade mudá-lo. Para melhor. É preciso, porém, admitir que ainda não temos essa capacidade nem conhecimento. Não conseguimos nem mudar a nós mesmos ainda. Se soubéssemos ao menos quem somos, mas não sabemos. Não nos permitimos e nem nos interessamos em saber. Conhecer a si próprio é o princípio, o começo do começo, para depois tentar mudar para melhor quem somos. É um processo contínuo, árduo e, na maior parte das vezes, desagradável. Mexeremos com vícios que gostamos muito de ter. Saltarão diante de nós defeitos que teimamos em fingir que não temos. Saberemos o tamanho extremo de nossa ignorância. Por fim, encararemos a nós mesmos, do jeito que somos realmente e não do jeito que queremos que acreditem (e até nós mesmos acreditamos) que somos.

Quando pessoas como Jesus, Gandhi e Madre Tereza deixarem de ser lembrados como exceção à regra, porque a maior parte dos seres humanos será como eles, aí então é que se dará o começo. Ainda não começamos. Mal temos vontade ou força de erguer o pé para dar o primeiro passo. Quando isso acontecer os próximos passos virão, mesmo que ainda árduos, mais facilmente. Então o processo de mudança global poderá realmente acontecer. Porque o mundo externo será também mudado, não por grandes acontecimentos, mas pelos pequenos. Em conseqüência natural da mudança de cada de um. A liberdade, a igualdade, a fraternidade e o amor não serão mais ideais. Serão parte de nós. Tão vivos, reais e imprescindíveis como a água, o ar, a terra e o fogo.

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Publicado em 21/03/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Branca

março 5th, 2009 § 0 comments § permalink

Há muito se luta na humanidade por igualdade. Mas há pouco é que o empenho nessa luta e o esforço de tantos que lutaram começaram a render alguns frutos. Durante muito e muito tempo nem lutar era possível. E o que querem? Serem iguais? De que forma? As mulheres lutam por igualdade. Os negros lutam por igualdade. Os pobres lutam por igualdade. Igualdade com o quê? Com quem? As mulheres iguais aos homens? Os negros iguais aos brancos? Os pobres iguais aos ricos? Bem… O caminho da igualdade não tem a mesma distância em ambas as direções? Por que não se cogita os homens serem iguais às mulheres? Os brancos serem iguais aos negros? Os ricos iguais aos pobres? Afinal de contas, o que é essa tal igualdade pela qual tanto lutam? Pela qual tantos lutam? E mais: quem elegeu o padrão de igualdade pelo qual se deve lutar? Seriam os homens melhores que as mulheres? Os brancos melhores que os negros? Os ricos melhores que os pobres? Quais entre eles estão convencidos disso? Quem convenceu quem? Quem se convenceu primeiro? Quem é mais convencido?

Muito além das mulheres, dos negros e dos pobres… Tantos outros lutam por igualdade. Mas são tão diferentes. Por que tanta ânsia em serem iguais? Então vamos desmistificar isso de uma vez por todas: jamais seremos iguais. E isso é muito bom porque somos mesmo diversos e múltiplos. Muitos confundem a luta por igualdade com a luta por ser igual. E dentre esses há os que querem mesmo ser iguais. Eu citei as mulheres. É uma pena ver que parte delas está mesmo se tornando “homens de saia”. Com todo o machismo, arrogância e frieza inerente a vários dos homens. A igualdade não era essa. A mulher é linda como é. Só que aí vem outra distorção. Muitos confundem como é que uma mulher “deve” ser, achando-a menor ou menos importante que o homem. A mulher tem o mesmo tamanho e a mesma importância que o homem, não importa em que época, contexto ou situação.

Não é justo uma mulher, ocupando o mesmo cargo que um homem numa empresa, receber menos por ser mulher. Não é justo a mulher ser desrespeitada ou mal tratada só porque muitas vezes tem uma característica física mais frágil ou uma personalidade mais emocional. Assim como no homem, a força existe na mulher. E nem precisa ser física. O valor é igual, embora as diferenças entre homens e mulheres sejam muitas. E cada uma delas deve ser respeitada. A igualdade em respeito e consideração. Não há melhor ou pior. Maior ou menor. O sexo, o gênero, a cor da pele ou a condição social de uma pessoa jamais deveriam levar ao preconceito ou à discriminação, seja de que tipo for. Somos todos seres humanos com direitos iguais. Então é esta a igualdade pela qual a luta é válida.

Quanto aos outros tratamentos desiguais… Quantos maus exemplos! Imagine a situação em que um adoentado chega ao hospital precisando de tratamento urgente. Se ele pagar de forma particular, o atendimento será um. Se tiver convênio com algum plano de saúde, dependendo do plano e qual modalidade paga, será outro tipo de atenção. Se não tiver plano algum e chegar ao hospital apresentando sua fichinha do “SUS”, todos sabemos que passará por uma série de constrangimentos e absurdos ultrajantes até conseguir ser (muito mal) atendido. Isso é igualdade? Igualdade seria uma pessoa chegar ao hospital, ser muito, mas muito bem tratada mesmo. Ter atendimento de primeira do início ao fim. Não importa quem seja. Daí então, no final, na saída, poder-se-ia perguntar se quem pagaria o tratamento seria ela mesma, se seria algum plano de saúde ao qual é conveniada ou se quem arcaria com o custo seria o governo. Não importa quem pagará no final. O tratamento deveria ser igualitário desde o início.

Quer mais exemplos? O acesso à educação… Todos deveriam ter o mesmo (e alto) nível de educação, não importa sua origem, aparência ou renda. Oportunidades iguais de emprego, de moradia, de cultura, de lazer… Não que cada um vá ser igual por ter tido oportunidades iguais. Temos características, personalidades e gostos diferentes. Essa multiplicidade é linda. Assim como as flores têm tantas cores e formatos tão diferentes. E todas são flores. Todas são belas. Nenhuma é menos flor que a outra. Assim se dá com os seres humanos. Tão diferentes e tão igualmente humanos.

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Publicado em 07/03/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Azul

fevereiro 26th, 2009 § 0 comments § permalink

Qual é a coisa mais importante para um ser humano? Complicado responder, não? Porque cada um de nós tem seus próprios valores e prioridades na vida. O que determinada pessoa acha importante pode ser completamente sem importância pra outra. A saúde? O amor? A prosperidade? Independentemente da ordem de prioridade, acho que todos nós queremos isso. Mas a pergunta inicial persiste. Vamos tentar descobrir então. Primeiro vamos pensar… Quando um indivíduo comete um ato definido como crime pela sociedade onde vive, qual é a forma de punição mais usada? A prisão? Sim… E estar preso não é o contrário de estar livre? Uma das coisas comuns em uma punição, seja qual for, é tirar da pessoa aquilo que tem mais valor pra ela. Privar ela dessa coisa. Nesse caso, da prisão, a primeira coisa retirada da pessoa é a liberdade. Então pode-se dizer que a liberdade é a coisa mais importante na vida de uma pessoa? Provavelmente.

Citei no parágrafo anterior a saúde. Sem saúde não somos realmente livres. A falta dela priva-nos da liberdade. E, como já citei num outro artigo, não estar doente não é o mesmo que ter saúde. É triste ver que uma considerável parte da humanidade hoje em dia vive sem saúde. Não necessariamente doentes, mas sem saúde. Sem vitalidade. Sem liberdade, portanto. Além de exigir das entidades responsáveis em nos propiciar um sistema de saúde adequado, digno e justo (e sem precisarmos pagar duplamente por um serviço que já é muito bem pago através de nossos impostos), precisamos também cuidar da nossa própria saúde. Dedicar-nos a isso. E quando digo saúde me refiro à física, mental, emocional e espiritual.

Citei o amor. Sem amor também não somos realmente livres. Precisamos amar e sermos amados. Demonstrar nossos sentimentos, perceber e viver os sentimentos de quem nos rodeia. O amor nos leva à ação, nos leva ao bem-estar, ao prazer e à felicidade. A falta dele nos leva à tristeza, à desesperança e à letargia… E assim também não é possível a liberdade. Viemos aqui neste mundo para sermos tudo que podemos ser. Sem amor não somos. É preciso cultivar nossas amizades, nossos amores. Como é preciso agir e se dedicar às pessoas que amamos. Fazer coisas por elas é, ao mesmo tempo, fazer por nós. Quem ama vive melhor. Também preciso é amarmos a nós mesmos. Princípio imprescindível para darmos amor verdadeiro e sermos mesmo livres. Quanto mais nos doamos mais nos temos. Amor é o princípio de toda e qualquer criação.

Também citada foi a prosperidade. Há um desequilíbrio enorme na humanidade a respeito dela. Uns acham que ricos vão pro inferno. Outros acham que qualquer coisa é justificável para alcançar a riqueza. Mas ambição e ganância são coisas diferentes. Temos direito a uma vida confortável financeiramente que nos leva a ter uma vida confortável com o que o dinheiro pode nos propiciar também. Ninguém precisa ser milionário pra isso. Tampouco é preciso ser pobre para ser “puro”. A pobreza priva a pessoa de muitas coisas. Escraviza… E quem é escravo está preso. E quem está preso não tem liberdade. Há no mundo mais que suficiente para todos. Viemos a esse mundo também para sermos prósperos. Com honestidade e equilíbrio. A recompensa pelo valioso esforço que fazemos diariamente. Um fruto justo do nosso trabalho. Assim como o outro: o prazer de trabalhar, produzir e criar.

Além disso, é preciso dizer que merecemos e temos direito à dignidade e ao respeito. À alegria, ao lazer e ao ócio. À educação, à cultura e ao aprendizado. Aprendizado de tudo. Principalmente de nós mesmos. Sem alguma dessas coisas também não somos livres. Viemos ao mundo para explorar, para aprender, para crescer. Como já disse, para sermos tudo que podemos ser. Não aceite menos. Menos que isso não é ser livre. Porque fomos criados livres. Não sendo, já não somos nós. Lute pela sua liberdade e pela liberdade daqueles que nem têm como lutar. E lute com afinco, com vontade, com verdade. Aliás, já foi dito há muito tempo: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”. Sim, a verdade. Tanto a nossa quanto a alheia. Tanto a bonita quanto a feia. Viva de verdade. Viva a liberdade. A sua e a do próximo. Querendo e respeitando a liberdade do próximo como se fosse a sua. A sua como se fosse a do próximo.

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Publicado em 28/02/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Duplipensando…

fevereiro 13th, 2009 § 0 comments § permalink

“Disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem.” Você deve se lembrar dessas afirmações de algum lugar, não? É da letra de “Há Tempos”, escrita por Renato Russo. Elas dão o que pensar e geram algumas perguntas, principalmente sobre a primeira afirmação. Quando alguém é submetido à disciplina, isso é liberdade? Ou quando alguém é livre, tal liberdade equipara-se à disciplina? Lembro-me que o próprio Renato foi questionado a respeito e tentou explicar que entenderam errado, etc. Seja como for, é um bom exemplo de “duplipensar”. “Duplipensar”? O que é isso? É um termo usado no livro “1984” de George Orwell. Pegue outras afirmações: “Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força.” Compare… Será que não entenderam bem o que o Renato Russo escreveu ou ele quis mesmo dizer o que disse e depois desconversou? O que foi mesmo que ele disse?

No livro de Orwell “duplipensar” consiste no fato de uma pessoa ao mesmo tempo saber e não saber. Mas vai além. Nesse conceito alguém poderia acreditar numa verdade sabendo que é mentira ou vice-versa; defender simultaneamente dois pontos de vista opostos, sabendo que são contraditórios e ainda assim acreditar nos dois. Complicado, né? Bem… Pegue as afirmações citadas no primeiro parágrafo, as primeiras de Renato Russo e as segundas reproduções das diretrizes do Partido no livro “1984”. Cada uma delas pode ser usada em sentido direto ou oposto, dependendo do que se quer dizer. Para mencionar outro exemplo em letras de música, considere “Ninguém = Ninguém” (‘ninguém é igual a ninguém’), escrita por Humberto Gessinger. Perceberam o título? Dois pensamentos numa só afirmação? Sim. Só que Gessinger, ao contrário de Russo, não pretendia que supusessem que a idéia era dele nem tomada como algo inocente ou romântico. Muito pelo contrário, as letras de Gessinger são marcadas por uma visão mais ampla, dura e realista das coisas, usando e abusando de citações, ironias e sarcasmos, pra ver se assim alguém acorda. Na mesma música ele diz que são “todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. Uma citação quase que direta de outro livro de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”: “todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que os outros”.

E o que isso tem a ver com a nossa realidade? Tudo… É só reparar nas “informações” que nos chegam a todo instante por todos os meios de comunicação. Quer um exemplo mais específico? Como você acha que Lula conseguiu se reeleger mesmo com tanta corrupção transbordando em seu partido e entre seus “companheiros”? “Deixa o homem trabalhar! Tá tudo funcionando direitinho, ele trata o povo com carinho…”, não era isso que a musiquinha dizia? Por muito, muito menos, membros da equipe de Obama não puderam tomar posse de seus cargos. No Brasil donos de castelos e de cuecas endinheiradas continuam no poder. E lá ficarão porque os brasileiros, mesmo não sabendo o que “duplipensar” significa, já incorporaram o conceito em seu subconsciente. Além do mais, “Big Brother” para brasileiro é aquele programa apresentado por Pedro Bial. Só falta terminar o parágrafo com uma afirmação “duplipensada” em homenagem ao “nosso” povo: ignorância é felicidade.

Toda vez que uma campanha mirabolante de marketing lhe atingir, seja ela política ou simplesmente para vender uma televisão ou geladeira, pense… Você está tirando suas próprias conclusões ou as conclusões que eles querem que você tire? Você está tirando as conclusões que eles querem achando que são suas? A conclusão é “coincidentemente” a mesma de ambos os lados? Você já não sabe mais de quem é a conclusão? Continue a lista de perguntas. Seja como for, é provável que você vote no candidato ou compre a geladeira assim mesmo. O sistema já engoliu você. Afinal o sistema são as pessoas. (Viu? Outro “duplipensamento”!)

E, para finalizar, não se esqueça que todos são únicos e raros. Todos são especiais. Mas… Se todos são especiais, isso significa então que ninguém é especial, não é? Entendeu? Se sim, você já está pegando o “espírito da coisa”. Quem sabe assim consiga até vir a ser imune a alguns “duplipensamentos”. Ou não. Citando novamente Gessinger: “me encanta que tanta gente sinta (se é que sente) a mesma indiferença”.

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Publicado em 14/02/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

K7, MP3 e “pirataria”

fevereiro 6th, 2009 § 0 comments § permalink

Nas décadas de 70 e 80 era comum que aquele namorado apaixonado gravasse em fitas K7 (se você não sabe o que é, procure na Wikipedia) uma seleção de músicas românticas para sua amada. As fontes das músicas eram os LPs (vide Wikipedia também) e as rádios FM (isso quando o *&@! do locutor não resolvia gritar bem alto durante a música algo do tipo: ‘Essa é sua XYZ FM!’). Embalados pelas músicas, muitos romances se avivaram ou se perpetuaram assim. Quantas viagens de carro ou noites apaixonadas em casa não tiveram um som de fita K7 ao fundo? Mas, pelo conceito atual das gravadoras esses casais não passam de criminosos. Reproduziram músicas “ilegalmente”.

Naquela época, entretanto, nunca vi ninguém ser processado ou preso por conta disso. Hoje em dia é diferente. Há o MP3 e a Internet. Então as gravadoras surtaram e começaram uma caça às bruxas com o intuito de queimar na fogueira todos os que distribuem ou ouvem suas preciosas obras nesse formato. Embora haja tentativas de criar sites onde as músicas são pagas antes de ouvir, a esmagadora maioria é distribuída de graça por usuários e ouvintes. Funciona mais ou menos assim: alguém compra o CD original, transforma em MP3 cada uma das músicas e depois disponibiliza na Internet para quem quiser baixá-las, de graça. Isso é pirataria?

Existe sim uma indústria da pirataria que pega esses mesmos CDs (e DVDs), os reproduzem em larga escala e criam um mercado paralelo e verdadeiramente ilegal. Os distribuidores finais são camelôs que os vendem bem mais barato que um original. Isso é pirataria e crime. Quem reproduz ou distribui material protegido por direito autoral de forma não autorizada visando lucro financeiro deve ser preso. Mas, e os ouvintes/usuários que gravam e distribuem músicas de graça pela Internet? São criminosos também? Se você considerar criminosos aqueles namorados do primeiro parágrafo, então sim. No meu ponto de vista, não. O princípio é o mesmo, não importa a década.

A grande verdade é que quem ganha dinheiro com a venda de CDs originais são somente a gravadora, as lojas e o governo. Os artistas recebem uma ínfima fração do valor final praticado e, na maior parte das vezes, nem têm o direito de saber quantos CDs foram realmente vendidos (já que não são numerados). Artista, a não ser que venda milhões de cópias, costuma ganhar dinheiro mesmo é com shows. Nesse caso o CD não passa de divulgação e marketing, não sua fonte de renda. Mas, se o caso é fazer propaganda, é mesmo necessária uma gravadora hoje em dia? Muitos artistas, felizmente, já descobriram que não.

Devo dizer que quem criou a indústria da pirataria (a real) e a comunidade de livres distribuidores e ouvintes de MP3 foi a ganância burra das próprias gravadoras. Quer um exemplo? O novo CD do U2 custará por volta de R$ 35,00 no Brasil (quase 8% de um salário mínimo). Se em vez desse valor, o original custasse R$ 5,00, você se arriscaria a comprar uma cópia pirata? E se por R$ 2,50 você pudesse baixar legalmente todas as músicas desse CD diretamente do site da gravadora para colocar em seu MP3 player? Compensaria o tempo que iria passar tentando achar alternativas gratuitas pela net? Acredito que não. As gravadoras venderiam muito mais e, conseqüentemente, lucrariam também muito mais.

Independente, “O Teatro Mágico” cobra R$ 5,00 por seu primeiro CD, mas foi além: se você quiser baixar suas músicas na Internet é de graça, legal e até incentivado por eles mesmos. Apesar da sua principal fonte de renda ser também os shows como qualquer outra banda ou artista, estão ganhando muito mais dinheiro por CD vendido do que se tivessem optado por um contrato com uma gravadora (“atravessadora”?). Lobão (já faz tempo) e Chrystian & Ralf são outros exemplos de artistas que partiram para caminhos semelhantes e que hoje ganham muito mais e podem até pagar melhor seus músicos contratados.

Iria citar o caso em que “O Teatro Mágico” certa vez foi multado pelo ECAD (órgão de funcionamento dúbio criado durante a ditadura para vigiar o quê, onde e como o artista estava tocando e não para protegê-lo) por estarem executando suas próprias músicas num show. Mas aí já é outra história. Por enquanto queria passar pra um CD ou MP3 player umas músicas românticas pra minha namorada… Será que iria preso?

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Publicado em 07/02/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Um dó da Língua…

janeiro 23rd, 2009 § 0 comments § permalink

Embora não seja um acadêmico ou profundo conhecedor da Língua Portuguesa, aí embaixo do artigo é dito que sou poeta e escritor. E sou. E sendo, a ferramenta que disponho é o idioma (e toda a sua riqueza em gramática, ortografia, vocabulário, etc.). Sou também um amante da Língua. Um amante autodidata, curioso e intuitivo. É verdade que tenho lá minhas manias que às vezes acabam gerando erros involuntários de Português e noutras são apenas características que acabam por formar meu próprio estilo de escrita. Uma delas está nítida neste parágrafo. O ponto-final onde talvez o melhor fosse vírgula. Ou seja, muitas vezes uma frase minha é formada por várias outras menores. Mas gosto disto. Em outras ocasiões: o abuso de vírgulas (estou tentando diminuir). Há também o gosto por dois-pontos (como na frase anterior) e a tentativa de usar corretamente o ponto-e-vírgula. Sem contar o meu costume de rimar, muitas vezes sem querer mesmo. Uma característica herdada dos poemas, mesmo quando escrevo prosa.

Repito que sou um amante da Língua Portuguesa. E, como tal, quero amá-la cada vez mais, escrevendo melhor. Mas, ao contrário de quem ama, parece-me que há pessoas hoje em dia que a odeiam. É como se houvesse um “acordo ortográfico” paralelo em vigor, com o objetivo de destruir completamente nosso idioma ou criar um novo. Ou, então, nem isso. Talvez seja pura ignorância mesmo. Na Internet os chats, postagens, comentários e recados deixados em sites de relacionamento estão repletos de erros crassos de Português. Quanto a esses alguns tentam justificar. Podem ser resultado da (má) educação, podem ser preguiça, podem ser irreverência… Além do mais, cada um é livre pra escrever como bem entender. Mas, e quando se trata de um profissional (jornalista, colunista, escritor, redator, etc.) que usa o idioma como uma de suas principais ferramentas? Acredito que isso passa a ser então inaceitável.

Cada vez que abro um “portal” de notícias me deparo mais e mais com verdadeiros atentados ao idioma. O mal, entretanto, não está somente na Internet. Revistas, jornais e anúncios impressos estão repletos de barbaridades. Antigamente ainda havia a figura do revisor: um profissional que tentava corrigir os erros, numa primeira instância, gerados por equívocos comuns aos quais qualquer um está sujeito. Num segundo momento, por toda uma geração que não aprendeu, não quer ou não se esforça em escrever corretamente. O trabalho ficou então penoso. Era preciso praticamente reescrever inteiramente os textos. Hoje nem esse profissional há. Sabe-se lá se por corte de custos ele foi abolido e quase tudo que é escrito vai parar no jornal, livro ou revista do jeito que foi enviado por seus autores. Errado e pronto. E ponto.

O que quero exemplificar não cabe num artigo. Quiçá (adoro esta palavra) numa tese? Mas ainda dá tempo de dizer: que há o “mal” e o “bem”; que há o “mau” e o “bom”; que “por que” é separado em perguntas (e tem acento se no final da frase); que “concerteza” com certeza está errado (“porisso” também); que “você” não é “voçe”; que “deletar”, “estartar”, “escanear”, “printar”, “bidar” e “bilar” não existem (mas “excluir”, “iniciar”, “digitalizar”, “imprimir”, “licitar” e “enviar a fatura” sim); que não há palavra portuguesa terminada em “n” (“alecrim” continua tendo “m” no final); que “mim” não conjuga verbo; que isso é entre “mim e você”; que é “quis” e não “quiz”, “interveio” e não “interviu”, “seja” e não “seje”; que quartos “alugam-se”; que “havia” muitas pessoas e não “haviam”; que “faz” cinco anos e não “fazem”; que “saiu há pouco, mas daqui a pouco voltará”; que quem assiste “ao” jogo pode também assistir uma pessoa; que cidadãos não são “cidadões”; que peixes não têm “espinhos”; que não tem “menas” gente; e que a maioria das palavras, quando no plural, termina em “s”.

Olhe que só citei alguns poucos erros. Mas há ainda o grande erro: muitos não entendem o que lêem, que dirá escrever textos inteligíveis. Nem mesmo conversar de forma inteligível. As idéias são confusas, sem nexo ou sem real conteúdo e objetivo. É triste ver que hoje em dia muitos dos “profissionais” da escrita ou da fala estão se transformando em cirurgiões que não sabem usar o bisturi ou, pior, nem sabem o que seja um.

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Publicado em 24/01/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

“To really love a man”

janeiro 15th, 2009 § 1 comment § permalink

É comum as mulheres acharem que tudo o que interessa a um homem é apenas cerveja, futebol e sexo. E eu devo dizer que elas têm toda a razão. Uma boa parte dos homens, infelizmente, parece ser mesmo assim. Como diz Rafael Marti, há um abismo enorme entre o homem que gosta mesmo de mulher e do “macho” que gosta só de fazer sexo com mulher. Mas neste artigo não vou falar desse “macho”. Quero falar do homem que é sensível, gentil, educado, honesto, trabalhador, criativo, ambicioso, decidido, interessante, inteligente, romântico… Daquele que escreve poemas, lembra datas, manda flores, adora preliminares e não sossega enquanto não sentir a mulher feliz e satisfeita. (Sim, embora às vezes tenham “recaídas de macheza”, esses caras existem.)

Parece-me que atualmente muitas mulheres estão à procura desses homens. Dentre elas há a que, enquanto não encontra o “certo”, vai se divertindo com os “errados”. É justo. E há a que decide esperar até que um cara legal de verdade apareça. As duas estão certas. Mas, seja como for, e quando esse cara, “o” cara, aparece?

Temos milhares de artigos, livros e filmes sobre como o homem deve agir com uma mulher e sua forma de ser: suas variações de humor, suas imprevisibilidades, suas manhas, seus gostos, seus modos, sua feminilidade. Seu charme e sua beleza. O homem deve ter iniciativa, mas respeitar sua opinião. Ser sensível e ao mesmo tempo ter pegada. Encontrar o ponto “G”, “H”, “I” e “J”… O abecedário inteiro. Render múltiplos orgasmos. Ser carinhoso depois. Dormir de “conchinha”. Ter paciência e esperar até que ela se arrume pra sair. Amar a sogra. Adorar crianças. Conhecer lugares interessantes, vinhos, livros, filmes e músicas. Ser bem informado, mas não chato. Fazê-la rir, mas não agir como palhaço. Gostar de “Sex and the City” e saber o que é “Lancôme” e “Victoria’s Secret”. Enfim, tudo isso e muito mais. Afinal se o cara é “o” cara, não se pode esperar menos. E nada de tréguas pro futebol de sábado ou aquele pornozinho básico. Olhar pra outro bumbum, também, nem pensar.

Muitas mulheres dizem querer um homem assim. Mas é isso: só dizem. Quando o encontram não sabem o que fazer com ele. Depois de um tempo pode até acontecer de voltarem pros “machos” normais, aqueles grossos e mal-educados de sempre. O cara é “bonzinho demais”, uma chatice. Mas, tá… Ela não apenas diz, quer mesmo um cara assim. Mas aí, em alguns casos, talvez fique tentada ela a assumir o lado “macho”. A grosseria, a falta de sensibilidade e o tratamento com “casca e tudo” passam pro outro lado. Acredita que é preciso alguém assim no relacionamento, já que o homem não é. (Mais um tempo e estará chamando seu príncipe de “banana” e já achando que não era bem isso que sonhava.)

Tá, mas acontece que ela não age assim. E pra ela está tudo bem, ou deveria estar, não fosse ele andar tão desenxabido, isso “sem motivo algum”. Então vira um prato cheio para cobranças ou a “confirmação” da tese de que homem é mesmo tudo igual. Que é só dar um tempo até que o “macho” insensível e distraído se revele. Mas esse homem não era “o” cara? É. Só que anda mesmo triste, desanimado, desinteressado. Um poeta sem musa. Por quê?

Porque é preciso que essa mulher descubra o ponto “G” desse homem. “H”, “I”, “J” e o abecedário inteiro também. Não só no sexo, mas em todas as áreas do relacionamento. Que ela se torne (ou continue sendo) essa musa que ele também tanto quis. Homem também sonha. Sonha com essa mulher que o estimule, que continue lhe provocando, lhe instigando a roubar a lua para dar a ela e a mover céus e terra para estar ao seu lado. Que a queira mais que tudo. Que a venere e que a faça sentir-se, mais ainda, mulher. Mas para isso é preciso que ela também o faça sentir-se homem, correspondido por ser dedicado, carinhoso, encantado, apaixonado e tarado por ela.

É óbvio que ninguém é perfeito, que problemas existem, que discussões acontecem, que há fases, que há idealizações e expectativas insatisfeitas (seja de que lado existirem, quase nunca funcionam). E que é preciso muito malabarismo de ambas as partes para que um relacionamento seja duradouro e continue quente e romântico. Mas, se há milhares de manuais explicando a um homem como “conquistar” uma mulher, esqueceram-se completamente do inverso. Sem manuais: a paixão, o encanto e a sedução devem ser cultivados por ambos. Sempre.

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Publicado em 17/01/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Inove

janeiro 9th, 2009 § 0 comments § permalink

Então mais um ano terminou… E outro se inicia. Após duas semanas de “férias”, cá estou novamente. Sim, porque precisamos dessas paradas, desse sentido de transição. Os anos não sabem que os numeramos. A Terra continua a girar em torno do Sol e em volta dela mesma, assim como a Lua em volta da Terra. As estações se sucedem (menos em Catanduva, onde só há verão). E é isso que os anos sabem sobre si. Os dias também. Não sabem que lhes colocamos nomes. Um domingo qualquer poderia muito bem ser uma quarta-feira. É domingo porque assim queremos ou pensamos que é. Mas, como disse, precisamos disso para nos dar um sentido de transição e progressão. E, já que estamos falamos em transição, devo dizer que o famigerado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor dia 1º de janeiro. E, como temos três anos para nos adaptar, talvez em 2012 vocês me vejam escrevendo na nova ortografia sobre a qual não fui consultado, não gosto e tampouco aprovo.

E neste dia 20 de janeiro toma posse o novo presidente do mundo, no qual não pude votar, mas queria. E espero que ele, mesmo que não corresponda a todas as expectativas que pesam sobre suas costas, possa a vir a fazer um bom governo. Já não ser o Bush é um ótimo começo. (Aquela sapatada tinha de errar o alvo?) Começamos com guerra e ataques na Faixa de Gaza. O que demonstra que sai ano, entra ano, e a humanidade não aprende. No caso dos povos daquela região, sai milênio, entra milênio, e não se entendem. O que fará um dia perceberem que são todos irmãos? Somos todos irmãos.

Comecei com a corda toda, né? Atirando pra todo lado? Nada! Meu final/começo de ano foi um dos melhores que já tive e estou muito bem-humorado. É que muitas vezes não dá pra ficar indiferente ao que acontece ao nosso redor. Como agüentar mais um “Big Brother Brasil”? Tirando algumas pérolas-exceções como Capitu, Decamerão e Maysa, a televisão aproveita essa época do ano para nos entupir ainda mais de besteiras. E, se como não bastasse a TV, agora temos muito mais porcarias via Internet que, não por acaso, começa a ser dominada pelos mesmos grupos que são donos das Rádios e Televisões tradicionais. É só ver o site que boa parte das pessoas está usando como página inicial. A Internet, que tinha como grande atrativo ser um lugar onde se busca por informação de verdade, pode vir a se tornar um lugar de onde a desinformação vem de qualquer jeito, sem a pessoa ter tempo, espaço ou vontade de escolher o que realmente quer.

Sobre os meios de comunicação, não só a TV e Internet, cito um trecho do filme Network (de Sidney Lumet [1976, mas muitíssimo atual em vários aspectos]): “Nesse exato momento há uma geração inteira que nunca aprendeu nada que não tivesse saído dessa caixa! Essa caixa é seu evangelho. É a revelação máxima. Essa caixa pode fazer ou depor presidentes, papas e primeiros-ministros. Essa caixa é a maior força que existe [...].” E ainda: “Me escutem! Televisão não é a verdade. Televisão é uma porcaria de um parque de diversões! Televisão é um circo, um carnaval, um bando de acrobatas, contadores de estórias, dançarinos, cantores, pilantras, montadores de shows de mentiras, domadores de leões e esportistas. Estamos num negócio em que a única coisa que importa é matar o tédio. Por isso, se vocês querem a verdade, procurem Deus, procurem seus gurus, procurem seus interiores! Porque lá é o único lugar onde encontrarão alguma verdade.” E: “Vocês, pessoas, sentam na frente dela, dia após dia, noite após noite. Vocês são de todas as idades, cores e credos. [...] Vocês estão começando a acreditar até nas mentiras que estamos lhes dizendo nesse exato momento. Vocês estão começando a acreditar que a caixa é de verdade e que suas vidas são de mentira! Vocês fazem tudo que a caixa manda vocês fazerem! Vestem-se como ela manda, comem o que ela manda, criam suas crianças como ela quer e até pensam como a caixa! Isso é uma alucinação coletiva em massa, seus maníacos! Em nome de Deus, vocês pessoas é que são a realidade! Nós aqui dentro é que somos a ilusão!”

Então é isso… Em 2009 procurem a verdade. Dentro de si mesmos. Libertem-se. Sejam tudo que podem ser. Sejam vocês mesmos. Descubram. Cresçam, aprendam, vivam. Criem. Amem. E tenham um intenso e verdadeiro Ano Novo!

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Publicado em 10/01/2009 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Teleflora

dezembro 17th, 2008 § 0 comments § permalink

Li recentemente um texto onde se dizia que no Brasil nós não somos clientes das empresas, somos reféns. Concordo plenamente e acrescento que isso se torna ainda mais evidente quando as empresas são as de telefonia. Em meio aos monopólios, preços ultrajantes e ilegalidades cometidas descaradamente em várias modalidades de serviços, isso é ainda mais gritante caso você tente contatar o suporte ou exigir que seus direitos sejam cumpridos. Ligue para o atendimento dessas empresas… E é melhor que o seu remédio de pressão não tenha sido trocado por balas de farinha como no caso daquele senhor da novela. As novas “regras” para call centers (ou “centros de atendimento”, se considerarmos que ainda falamos Português), após seis meses de prazo que tiveram para adaptação, ainda não estão sendo cumpridas.

Além de não cumprir as leis, as empresas agem como se estivessem nos prestando um enorme favor em vez de um serviço pago (e muito bem pago). Roubados e humilhados, não temos com quem reclamar. Governo? Anatel? Todos parte da mesma quadrilha. O cliente não é rei, é escravo. É refém. Porque também não tem escolha. Se quiser uma linha de telefone fixa em Catanduva, quantas opções você tem? Uma. Mas alguém diria que, ao menos para ligar para fora da cidade ou para fora do país, há outras operadoras de telefonia e aí sim temos concorrência e opções. Então vamos fazer uma pequena comparação de preços entre as principais “operadoras”.

Suponhamos que nesse final de ano seu filho decidiu passar férias em Londres. Tomado de saudade você resolve conversar com ele durante uma hora ao telefone. Se você acredita no “Super 15” e resolveu ligar pela Telefônica descobrirá, só na próxima conta, que a ligação lhe custou R$ 176,12. Se pesquisasse outras operadoras saberia que o valor pela Embratel ficaria em R$ 115,21 e pela Intelig em R$ 97,55. Mas a grana estava curta e seu filho mudou o destino para Salvador. Os preços ficariam então assim: Telefônica, R$ 38,85; Embratel, R$ 32,54; Intelig, R$ 50,46. Mas teve a crise, não deu pra viajar, e ele ficou em Catanduva mesmo. Então, usando a única opção de telefonia fixa disponível nesta cidade, a Telefônica, você gastaria R$ 10,06 pelos mesmos 60 minutos em ligação local.

Parece bom, né? É péssimo. Compare com as tarifas em outros países. Ou com serviços “VoIP”. “VoIP, que é isso?” Bem… É possível conversar (sim, com voz) através da Internet usando softwares próprios para isso (não, o MSN não é próprio para isso). VoIP significa “Voice over Internet Protocol” ou, em versão livre, ‘voz pela Internet’. Nisto o Skype é um dos melhores. Se ambas as pessoas possuírem Internet e o Skype instalado, qualquer uma das ligações citadas neste artigo, se feitas através dele, seriam de graça.

“Mas a outra pessoa não tem Skype.” Está bem… É possível ligar de Skype para telefone convencional (e vice-versa). O serviço então será cobrado, mas compensa. A citada ligação para Londres ficaria em R$ 3,94. Para Salvador, se usado um plano de assinatura, ficaria em R$ 2,80. De Catanduva para Catanduva, os mesmos R$ 2,80, já que as cidades possuem a mesma tarifa, não importa sua localização dentro do Brasil. Isso poderia ser ainda mais barato, só não é porque o Brasil é o único país atendido onde o Skype não consegue ter planos de minutos ilimitados, devido aos altos custos operacionais daqui. “Ah, mas é chato falar na frente do computador com microfone e fone de ouvido.” Hoje há aparelhos de telefone, até sem fio, que podem ser usados para ligações tanto via Skype como convencionais. Assim você pode também aproveitar melhor o absurdo que paga pela sua Internet “banda larga”.

Meu objetivo não é fazer propaganda do Skype, mas anti-propaganda da Telefônica e suas iguais. E alertar para uma real opção, enquanto as que foram prometidas por décadas pelos governos e empresas de telefonia até hoje não foram cumpridas. É como se eles, sorridentes e montados em dinheiro, continuassem a repetir para nós as palavras daquele “grande estadista”: “Meu, sifu!”. É bom poder dar o troco de vez em quando. Se tirarmos as nádegas do assento, quem sabe um dia definitivamente?

(Os valores citados são estimados, já acrescidos de impostos e têm como fonte os sites www.comparatel.com.br e www.skype.com.)

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Publicado em 20/12/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.

 

Ser ou não ser?

dezembro 12th, 2008 § 0 comments § permalink

Você está andando na rua, no shopping, numa praia, ou seja lá onde for e, de repente, ouve alguém dizendo sobre uma terceira pessoa: “Que coisa mais ridícula! Será que ela não se enxerga?” Esse comentário pode ter sido a respeito da roupa que a outra estava usando, da maneira que estava se comportando ou as duas coisas. O conceito implícito é que quem fez o comentário se enxerga e a outra, a “ridícula”, não. Mas, qual delas está incomodada e preocupada? Qual delas está despreocupada e confortável? Qual delas está infeliz e qual delas está feliz? Qual delas está presa e qual delas é livre?

Outro comentário que por vezes pode-se ouvir, e aí já não é uma crítica mas uma autocrítica, é: “Isso ficaria muito bonito, mas não em mim.” Ou: “Eu acho muito legal isso, mas eu mesmo não faria.” Embora o comentário do parágrafo anterior avalie o outro e estes a si mesmo, eles têm a mesma raiz. Quem comenta não acredita que determinados padrões de estilo ou comportamento sejam apropriados, para os outros, para si ou para ambos. Tanto no primeiro caso (por projeção ou inveja talvez) como no segundo (quem sabe por baixa auto-estima) há uma grande preocupação com o que os outros acharão e, antes que achem, opta primeiro a pessoa pela censura.

Já dizia Henry Ford que se você acha que pode ou se acha que não pode, estará certo de qualquer forma. A grande diferença está aí. A pessoa “ridícula” apontada no primeiro comentário acha que pode. Muitas vezes nem acha, tem certeza. E não há nada nem ninguém que fará com que mude de idéia. Porque sabe que pode. Aquela mulher na praia que tem estrias e celulite, que está acima do peso… Mas desfila altiva em seu biquíni mínimo, leve e solta, enquanto todos os homens babam por onde ela passa. Pode não ser a mais bonita, nem ter o corpo perfeito. Mas há um magnetismo natural. Um charme, uma sensualidade… Não que seja cega e não saiba dos seus “defeitos”. Mas sabe de suas qualidades. Ela pode. E usar uma roupa decotada, sensual ou um biquíni mais ousado como no exemplo, jamais será um problema pra ela. Muito pelo contrário.

Por outro lado, às vezes há mulheres que têm o corpo lindo, que são inteligentes, interessantes… E que não se acham. As roupas servirão para escondê-la. Os comportamentos serão direcionados de um modo que passe desapercebida, sem chamar a atenção. Também nesse caso não há nada nem ninguém que fará com que mude de idéia? A maior parte das vezes também não. É um desperdício, várias outras pessoas podem enxergar o quanto ela se limita sem necessidade, sabem das coisas que ela poderia fazer se fosse livre da autocensura e da autocrítica… Mas é ela quem decide, quem escolhe. É ela que precisa acreditar que pode.

É atribuída a Gandhi a frase: “O que pensais, passais a ser.” Então, se a pessoa conseguir mudar suas opiniões e pensamentos a respeito de si mesma, poderá vestir, falar, agir… Fazer tudo que quiser. Mas precisa querer. E também precisa se esforçar em mudar seu comportamento. E isso tudo se entender que há aí algum problema. Porque pode não entender assim. E, se não enxergar problema algum, então é que nunca mudará mesmo. E se não mudar ou se mudar, estará certa de qualquer forma. Afinal, liberdade é liberdade. Para ser ou não ser. (Ah, eu citei as mulheres. Mas tudo isso pode acontecer e acontece também com os homens.)

Quando uma mudança seria realmente necessária? Acho que começa por descobrir se se sente bem do jeito que é, do jeito que está. Se estiver tudo bem, não há por que mudar, seja lá qual for a opinião dos outros. Se sente que há algo errado, que podia ser diferente, que podia ser melhor. Então a necessidade de mudança se faz evidente. Verdadeiras mudanças são alavancadas quando a pessoa se apaixona. Por si mesma.

No primeiro comentário quem não se enxerga é quem comentou. No outro: sim, ficaria muito bonito nela também. E, se acha legal tal coisa, poderia e pode fazer a qualquer momento. Basta libertar-se. O “enxergar” aí é também conhecer. Conhecer a si mesmo. Sem censuras ou preconceitos. Quanto mais nos conhecemos, quanto mais nos permitirmos, mais podemos. Quem conhece a si mesmo jamais aceitará que um outro dite quem ou como deve ser. Mesmo que esse “outro” seja um “eu-chato” dentro da própria cabeça.

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Publicado em 13/12/2008 pelo jornal “O Regional” de Catanduva – SP.