Adeline

junho 22nd, 2011 § 0 comments

Do outro lado da mesa, Virginia Woolf. Ali, à minha frente. Distante ouvia-se cantando uma voz feminina, muito rouca, quase áspera de tão sutil. Conversávamos… Ou melhor, eu falava. Ela, eu não sei se escutava. Apenas a via olhando para o nada. Longe. Não podia dize-la triste. Seria sentimento demais. Via uma pessoa vazia, completamente, onde nem a tristeza se atreveria entrar. Não havia diálogo. Era como fazer amor com uma frígida. Sem reação. Mas eu continuava. A falar coisas que nem sei se tinham sentido. Tentava provocar. Um gesto. Uma palavra. Um olhar. E nada. Muito tempo depois, eu, cansado, também me calei. Fiquei apenas ouvindo a música, tomando minha bebida e vendo aqueles olhos que não estavam ali. Então ela torna o rosto e finalmente me encara. Firmemente. Muito seriamente, trazendo no semblante uma amargura de destruir, devastar e corroer por dentro qualquer pessoa. Sua boca se abre. E diz: “Existe algo mais real que um fantasma?”

 

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>