Adianta dizer que morro de raiva de você? De você não querer saber se estou vivo ou morto? De você não querer saber que eu finalmente comecei a fazer aulas de dança de salão? Que continuo saltando de pára-quedas? Que lá de cima, na cidade, eu ainda te procuro?
Adianta contar que arrebentaram meu carro na sexta pra levar o som? E levaram tudo, menos o pendrive que você me gravou? Aquele que ainda tento decifrar o porquê de cada música e tem a tua declaração de adeus, muito mais que de amor? Que só consigo dormir reinventando o som da tua voz nos meus ouvidos? E acordar recriando o brilho dos teus olhos no meu dia?
Adianta dizer que só consigo beijar de novo quando esqueço a tua boca inesquecível? Que revejo teus sorrisos nas flores e tuas lágrimas na chuva? Os teus carinhos no vento? Que depois da minha pele e meu corpo terem sem você morrido, castos por tanto tempo, voltei a te procurar em cada mulher que conheço, jurando para mim mesmo que um dia ainda te encontro?
Adianta dizer que, por “descuido”, mostro fotos nossas, juntos, para as novas pretendentes, muito mais que para provocar ciúme, mas para dizer: “você consegue ser melhor que ela? mais linda e mais despudoradamente sagrada?” Adianta dizer que nos domingos, à noite, eu ainda choro sobre essas fotos? Que quero, de alguma maneira ainda não inventada, te trazer de lá para o agora e reviver tudo que ainda não vivemos?
Adianta dizer que estou prestes a me casar? Que vou me mudar de cidade de novo? Que vou amar tudo de novo? Que vou ter os teus filhos com outra pessoa? Que vou viver plenamente tudo que você também queria e, covarde, estúpida e idiota, desistiu? Adianta dizer que vou ser sim muito feliz com ela? Que sem você como fantasma ela é ainda mais linda, mais despudorada e mais sagrada? Muito melhor que você?
Adianta dizer que eu consegui te matar? E que nem assim adianta? Que você está morta e enterrada, mas meu amor não? Adianta?
Adianta…