Ele chegava de noite, entre resmungos e gritos sem nexo e batidas violentas na porta. Cada vez mais barulhentas, e eu então a abria. Não conseguia distinguir aquele homem. Entre o cheiro de conhaques, cachaças, mulheres, cigarros… Não encontrava seu cheiro. Achava que cada violência vinha de uma provocação. No que eu o provocava, meu Deus? Qual era a minha culpa, que merecia tão grave punição? Tão frágil, era eu. Uma rosa sendo despetalada em cada vez que os punhos se cerravam. Caída pelo chão, ele continuava. O sangue escorrendo da boca, dos olhos. E de sei lá mais onde. Agüentava até ele se cansar. Então o levava até o quarto, o deitava na cama, retirava seus sapatos e o cobria. No banheiro, no espelho, uma imagem refletia um rosto deformado que já não era o meu. E lá eu caía, também exausta. E ficava, não sei por quanto tempo.
No outro dia ele saia cedo. Tinha disso, não importava que hora dormisse ou como, sempre acordava muito cedo. Antes de mim. E voltava. Trazia pão, leite. Fazia o café. Punha a mesa. E ia me acordar. Pegava uma bacia, um pano. E limpava minhas feridas. De uma forma tão lenta, tão delicada. Com tanto cuidado. Seus olhos, lacrimosos, tinham tanto carinho. Tanta angústia. Tanta dor. Às vezes me perguntava: “Dindinha… Por que você não me deixa? Por que ainda continua comigo?” Não tinha muitas palavras para responder àquele, agora, menino. Arrependido, lindo e terno. De mãos tão macias e amorosas. Então punha minhas mãos atrás de seus cabelos e puxava sua cabeça para perto. E, após um beijo seco, quase nem beijo, engolia o vazio, o seco. E, a ele, conseguia apenas o esboço de um sussurro: “porque eu te amo”.
seres absurdamente interessantes! como podem? aff…
:)