Lábios

3 de setembro de 2010 § 00h45

Uma vontade louca de lhe ter. Livre entre meus braços. À vontade. Leve e urgente. A dançar, nua, por entre todos os meus abraços. E beijos. Eu, intenso e demente, em todos os seus lábios.

Não há comentários § Comentar

Adeus

21 de agosto de 2010 § 00h37

"Slow dancing" por apoetsdream

Fotografia: “Slow dancing” por apoetsdream

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

Desde o teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

(Pablo Neruda)

Um comentário § Comentar

Atrasado

17 de agosto de 2010 § 01h29

Adianta dizer que morro de raiva de você? De você não querer saber se estou vivo ou morto? De você não querer saber que eu finalmente comecei a fazer aulas de dança de salão? Que continuo saltando de pára-quedas? Que lá de cima, na cidade, eu ainda te procuro?

Adianta contar que arrebentaram meu carro na sexta pra levar o som? E levaram tudo, menos o pendrive que você me gravou? Aquele que ainda tento decifrar o porquê de cada música e tem a tua declaração de adeus, muito mais que de amor? Que só consigo dormir reinventando o som da tua voz nos meus ouvidos? E acordar recriando o brilho dos teus olhos no meu dia?

Adianta dizer que só consigo beijar de novo quando esqueço a tua boca inesquecível? Que revejo teus sorrisos nas flores e tuas lágrimas na chuva? Os teus carinhos no vento? Que depois da minha pele e meu corpo terem sem você morrido, castos por tanto tempo, voltei a te procurar em cada mulher que conheço, jurando para mim mesmo que um dia ainda te encontro?

Adianta dizer que, por “descuido”, mostro fotos nossas, juntos, para as novas pretendentes, muito mais que para provocar ciúme, mas para dizer: “você consegue ser melhor que ela? mais linda e mais despudoradamente sagrada?” Adianta dizer que nos domingos, à noite, eu ainda choro sobre essas fotos? Que quero, de alguma maneira ainda não inventada, te trazer de lá para o agora e reviver tudo que ainda não vivemos?

Adianta dizer que estou prestes a me casar? Que vou me mudar de cidade de novo? Que vou amar tudo de novo? Que vou ter os teus filhos com outra pessoa? Que vou viver plenamente tudo que você também queria e, covarde, estúpida e idiota, desistiu? Adianta dizer que vou ser sim muito feliz com ela? Que sem você como fantasma ela é ainda mais linda, mais despudorada e mais sagrada? Muito melhor que você?

Adianta dizer que eu consegui te matar? E que nem assim adianta? Que você está morta e enterrada, mas meu amor não? Adianta?

Um comentário § Comentar

Louco

31 de julho de 2010 § 15h37

“Vai passar, tu sabes que vai passar.” Caio falava sobre a angústia, sobre a dor, sobre o desespero. Muito provavelmente após o amor. A perda de um amor. A perda da possibilidade de um grande amor. Ou a perda de um amor que realmente foi grande. E foi mesmo amor. Mas não foi eterno. Quero dizer… Um grande amor sempre é eterno. Mas a sua vivência pode não sê-lo. Raramente é. Continuaria grande se fosse?

A quem está se apaixonando agora, talvez caberiam as mesmas palavras de Caio: vai passar, tu sabes que vai passar. Mesmo assim, iluda-se imaginando que será para sempre. Que será o grande amor da sua vida. Que envelhecerão juntos. Que a chama jamais se extinguirá. Iluda-se, sim. Pois que não há ilusão mais bela que esta em toda a vida. Um amor imenso, verdadeiro e eterno.

A vida… A vida é uma ilusão!

Sei que na vida nem tudo vale à pena ser feito. Mas que não fazer pode ser muito pior. Acreditar não é nada. Mas, não acreditar é a morte. E nada pode ser tão nada, triste e vazio quanto morrer em vida.

Então eu vivo. Faço. Acredito. Apaixono-me. Crio nas ilusões as minhas verdades. Das minhas verdades, as ilusões.

Meus sonhos são amantes das minhas realizações.

Jamais me apaixonei prevendo um fim. Eu vivo na eternidade. Porque, mesmo sabendo que, sim, vai passar, talvez um dia me engane. (E eu posso estar sempre enganado.)

E se a eternidade for tecida desses breves, loucos, passageiros e intensos momentos que em si mesmos eram pequenos pedaços de eternidades?

Há quem diga que amei muitas mulheres. Nada mais longe da verdade. A vida inteira amei apenas uma mulher. A amei em cada mulher pela qual me apaixonei. E continuarei amando. Até que ela chegue.

(Chegará? Não importa! A amo e a amarei da mesma forma.)

Em cada mulher a derradeira, a única, a eterna. Na minha loucura de que fosse. De que era. De que seja.

(Que ela mesma venha. E sem me convencer de eternidade, deixando-me eternamente na dúvida, seja ela a eterna, única e derradeira.)

Todos invejam os que enlouquecem por amor.

Eu não enlouqueço. Nasci louco.

Um comentário § Comentar

Sobre encontros e despedidas

21 de julho de 2010 § 03h29

Ela tinha os olhos profundos. Sei, falar isso é totalmente cliché. Mas tinha. Profundamente belos e profundamente tristes. Tão belos que parecia que aquela tristeza era a minha. Tão tristes que parecia que aquela beleza era a minha. É… Sim, foram os olhos. E, por algum tempo, alguns meses, um ano, sei lá… Ela foi o que tinha de belo, a minha alegria e a minha tristeza. (Tomo coragem, atrevido, levanto da minha mesa e já na cadeira ao lado dela passo a conversar como se a conhecesse desde sempre. Uma ousadia tão simples para mim de ser cumprida. Mais tarde ajeitaria seus anéis. Nunca seu coração — jamais o conheci.) Orquestrado por deus, pelo universo, pelo destino, ou como queira chamar, pressenti ali, naquela noite, naquele momento, mais que o encontro de dois olhares, o encontro de duas almas, profundamente vivas e profundamente belas. Ela tinha os olhos profundos. Eu, os olhos, tão vivos. Tão desavisados e ingênuos. Ali, naquela noite, não nos achamos nem nos encontramos. Já e desde sempre nos sonhamos e nos conhecemos. E, por isso mesmo, ali, naquela mesma noite, naquele primeiro olhar, tão vivos e tão profundos, nos despedimos. E nos perdemos.

Não há comentários § Comentar

A voz dos teus olhos

18 de julho de 2010 § 23h47

nalgum lugar onde nunca estive, alegremente além de
qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio
em teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,
tu me abres sempre, pétala por pétala, como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se quiseres ver-me fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo por toda parte;

nada que possamos perceber neste mundo iguala
o poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com as cores de seus continentes,
restituindo a morte e o eterno em cada respiração

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; apenas uma parte em mim compreende
que na voz dos teus olhos cabem todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, possui mãos tão delicadas

(“Somewhere I Have Never Travelled”, e.e.cummings)

Não há comentários § Comentar

A devolução das flores

13 de julho de 2010 § 19h45

"Suspicion" por hellolikegoodbye

Fotografias: “Suspicion” por hellolikegoodbye

Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida te enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.

(Caio Fernando Abreu)

Não há comentários § Comentar

Seco

27 de junho de 2010 § 19h16

Ele chegava de noite, entre resmungos e gritos sem nexo e batidas violentas na porta. Cada vez mais barulhentas, e eu então a abria. Não conseguia distinguir aquele homem. Entre o cheiro de conhaques, cachaças, mulheres, cigarros… Não encontrava seu cheiro. Achava que cada violência vinha de uma provocação. No que eu o provocava, meu Deus? Qual era a minha culpa, que merecia tão grave punição? Tão frágil, era eu. Uma rosa sendo despetalada em cada vez que os punhos se cerravam. Caída pelo chão, ele continuava. O sangue escorrendo da boca, dos olhos. E de sei lá mais onde. Agüentava até ele se cansar. Então o levava até o quarto, o deitava na cama, retirava seus sapatos e o cobria. No banheiro, no espelho, uma imagem refletia um rosto deformado que já não era o meu. E lá eu caía, também exausta. E ficava, não sei por quanto tempo.

No outro dia ele saia cedo. Tinha disso, não importava que hora dormisse ou como, sempre acordava muito cedo. Antes de mim. E voltava. Trazia pão, leite. Fazia o café. Punha a mesa. E ia me acordar. Pegava uma bacia, um pano. E limpava minhas feridas. De uma forma tão lenta, tão delicada. Com tanto cuidado. Seus olhos, lacrimosos, tinham tanto carinho. Tanta angústia. Tanta dor. Às vezes me perguntava: “Dindinha… Por que você não me deixa? Por que ainda continua comigo?” Não tinha muitas palavras para responder àquele, agora, menino. Arrependido, lindo e terno. De mãos tão macias e amorosas. Então punha minhas mãos atrás de seus cabelos e puxava sua cabeça para perto. E, após um beijo seco, quase nem beijo, engolia o vazio, o seco. E, a ele, conseguia apenas o esboço de um sussurro: “porque eu te amo”.

Um comentário § Comentar

Estrangeiro

21 de junho de 2010 § 23h03

"Time against Sunset" por ~hellolikegoodbye

Fotografia: “Time against Sunset” por hellolikegoodbye

em qualquer parte do mundo, pertenço àquele lugar. sou nativo. ao mesmo tempo e sempre, porém, sinto-me estrangeiro. em todos os lugares. o meu lar é o coração de uma mulher, que ainda não encontrei. e talvez nunca encontre.

Não há comentários § Comentar

Gi em Paraty

15 de junho de 2010 § 18h41

"your melody" por Jahblessme

Fotografia: “your melody” por Jahblessme

Para abrir o sorriso da Gi, menina diáfana, usaria metáforas, ousaria ações? Sem senões, quem sabe um olhar? Um caminhar beira-mar. E se ela sorrir para mim? Assim, sem falar nem fugir? Um pôr-do-sol em Paraty?

Não há comentários § Comentar