“Escola”

maio 8th, 2012 § 0 comments § permalink

Estou indo pra lá agora
Já são sete horas e tenho que ir pra escola
Ver o professor jogar toda sua raiva pra fora

[...]

Nós temos que aprender
Como eles vão prender
Mais um inocente na frente de sua mãe
Com suas mãos cheias de sangue
Chorando que nem gente grande

[...]

Nós temos que aprender
A viver, a morrer…
Sob a ameaça da terceira mundial,
Do desclassificado no jornal,
De mais um golpe fatal

[...]

O ano devia ser 1987 e, se era, eu tinha treze anos e este era um esboço de uma letra de música que eu estava escrevendo para a minha banda de punk rock (as reticências são porque não me lembro dela toda, o título tinha mesmo aspas e a melodia três acordes) . Letrista e contrabaixista eram as minhas atribuições.

O país era outro, o mundo era outro e eu já era eu mesmo.

Ou o país e o mundo eram os mesmos e eu já era outro.

E sei lá porque me lembrei disso agora.

Partners

julho 6th, 2011 § 0 comments § permalink

Ela vinha com uma urgência impossível. Rapidamente retirava o vestido, numa destreza difícil de reproduzir. E, então, vestida de colar, brincos, bracelete e anéis… Completamente despida de pudores, abaixava a minha calça. Sem delicadezas. Se encaixava em meu corpo. Mirava meus olhos fixamente. Enquanto iniciava uma dança cuja coreografia só ela sabia. De quando em quando me sorria, cínica, inocente e atrevida. Indecente. E me olhava, sempre. Nos olhos. Continuava. E continuava, avidamente. Até fazer meu corpo dar-lhe o prazer que tanto buscava. Era insana. Apertava-me fortemente. Podia sentir cada uma de suas contrações. Descabelada, demente, louca. Em espasmos. Gritava. Ria. Chorava. (Uma mulher chorando de prazer. Como era isso possível? De tudo que já vi em minha vida, ela, gozando, é o que vi de mais lindo.) Então caía sobre mim. Um beijo doce em meus lábios. Seus cabelos em meus ombros. Seu rosto em meu pescoço. Ofegante, permanecia. Suada, entregue… Por um tempo. Até inventar uma outra dança. Depois outra. Múltiplas. Quantas quisesse. Para só depois decidir que seria, quando seria, a minha vez.

Adeline

junho 22nd, 2011 § 0 comments § permalink

Do outro lado da mesa, Virginia Woolf. Ali, à minha frente. Distante ouvia-se cantando uma voz feminina, muito rouca, quase áspera de tão sutil. Conversávamos… Ou melhor, eu falava. Ela, eu não sei se escutava. Apenas a via olhando para o nada. Longe. Não podia dize-la triste. Seria sentimento demais. Via uma pessoa vazia, completamente, onde nem a tristeza se atreveria entrar. Não havia diálogo. Era como fazer amor com uma frígida. Sem reação. Mas eu continuava. A falar coisas que nem sei se tinham sentido. Tentava provocar. Um gesto. Uma palavra. Um olhar. E nada. Muito tempo depois, eu, cansado, também me calei. Fiquei apenas ouvindo a música, tomando minha bebida e vendo aqueles olhos que não estavam ali. Então ela torna o rosto e finalmente me encara. Firmemente. Muito seriamente, trazendo no semblante uma amargura de destruir, devastar e corroer por dentro qualquer pessoa. Sua boca se abre. E diz: “Existe algo mais real que um fantasma?”

Ritual

junho 21st, 2011 § 0 comments § permalink

Por, gentilmente, o colar em seu pescoço; o brinco, atentamente, em sua orelha; fechar, delicadamente, seu sutiã; abotoar, vagarosamente, os botões de seu vestido; beijar-lhe, afetuosamente, os olhos e a testa… Vestir uma mulher sempre me ensinou muito mais o que é ser homem que despi-la.

Miragem?

junho 21st, 2011 § 0 comments § permalink

As pessoas andam tão desconfiadas, tão secas, tão fechadas, sei lá… Chegamos a um ponto em que um “bom dia” é recebido com um olhar de soslaio. Um sorriso provoca um certo ar de repugnância. A gentileza é recebida com espanto. A delicadeza é tida como inconveniente. O interesse sincero é visto com desdém. A entrega franca tem como volta a arrogância.

As pessoas… Como foi que chegaram a isso? Claro, há todo um verniz. Uma fachada. Mas o que está lá dentro? E citam tantas coisas lindas no Facebook, no Twitter, no blog, sei lá onde… E fica por isso. Palavras e palavras. Mas, as vivem? Realmente? Alguém ainda vive? Alguém ainda sente? Alguém ainda se apaixona? Alguém ainda ama? Alguém ainda se importa? De verdade?

Devo pedir desculpas por me apaixonar? Desde quando isso virou ofensa? Desculpe, não posso me desculpar. Por me apaixonar. Por ser como sou. Não quero, não preciso e nem posso mudar. Amo ser assim. Ser quem eu sou custou-me muito. E eu sei o meu valor. Não careço que me enxergue para que eu seja. Sei quem eu sou.

Quanto a você, recuso-me a acreditar que o que vi seja miragem. Sei que é melhor que isso. Sei do seu tamanho. Sei como é imensa. E bela. Mas, aja como quiser. Faça como lhe convier. Seja como acha melhor ser. Não quero nem preciso que me prove nada. Apenas que saiba, se lhe interessa saber: havia um grande amor para você aqui.

O beijo

junho 16th, 2011 § 2 comments § permalink

Ela chegou perto, muito perto… Rosto rente ao meu rosto. Instantes infinitos. Senti o calor da sua pele, da sua respiração. Tão próxima que era impossível não acontecer. Com o coração disparado ainda olhei profundamente seus olhos, antes de fechar os meus. Um abrir delicado de lábios que queimavam de vontade. Rápido, muito rápido. Apenas os lábios. E, neste momento, foram mais que nossas bocas se tocando, as almas é que se beijaram. Em um segundo eu vivi a eternidade. De súbito, se afasta. Olha-me profundamente. Acena com a cabeça, ainda me olhando fixamente, que sim: somos nós! Nos encontramos. Levantou impetuosamente suas asas, e se foi. Tão rapidamente quanto chegou. Levando consigo a certeza do que também sentiu. E de que ainda voltaria. Para, dessa vez, ficar.

Em primeira pessoa

junho 8th, 2011 § 0 comments § permalink

As portas e janelas estão fechadas. Não consigo respirar direito. Há fumaça por todos os lados. Tusso muito. Ouço os estalos das madeiras. Cada vez mais altos. Tudo caindo. Queimando, queimando… O fogo se alastra muito rápido, aumenta demasiado, não consigo mais fugir. Nem me proteger. As labaredas atingem meu corpo. A dor me dilacera. O cheiro é horrível. O calor insuportável. Peço a Deus que acabe logo. Passo as mãos em meu rosto. Não tenho mais orelhas. Vejo meu corpo se definhando, minha pele derretendo. Estou desesperada. E não há mais o que fazer. Então fecho meus olhos. Se é que ainda existem. E tudo parece uma eternidade. Paro de gritar. De me esconder. Já não estou mais aqui. Vejo seus olhos. Encontro paz e alívio neles. Estou incrivelmente serena agora. Já não sinto dor. E caminho em direção ao seu olhar. Cada vez mais perto. Mais perto. Meus sentidos vão se perdendo. Enquanto eu me encontro. Com ele. E adormeço tranqüila em seus braços. Agora somos um. Para sempre.

Rascunhos de “Eiffel”, trecho que provavelmente não entrará no livro.

A minha morte

junho 3rd, 2011 § 0 comments § permalink

Na praia, ao mar, ao vento; nos braços da tão amada: assim sonho minha morte. Desde que triste sorte, ao pó: morrerei só. Eu, e a liberdade.

Protegido: Amor e outras coisas impossíveis

maio 24th, 2011 § Digite sua senha para ver os comentários. § permalink

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Reencarnação

maio 23rd, 2011 § 0 comments § permalink

Antigamente o amor morria de velhice. Depois começaram a abreviar sua vida. Matavam-no em idade adulta. Então jovem. Então criança. Agora simplesmente o abortam.

(Mas eu acredito em reencarnação.)